Na véspera da abertura, em entrevista coletiva no dia 10 de junho, Infantino foi taxativo: sem a “participação e envolvimento” de Trump, “teria sido impossível organizar uma Copa do Mundo nos Estados Unidos” . A fala reforçou o que a imprensa internacional descreve como o auge de uma “broderagem” que domina os holofotes do evento
.
O episódio mais simbólico da tensão migratória envolveu o árbitro somali Omar Artan, de 34 anos. Ele estava escalado para apitar no torneio e faria história como o primeiro oficial de campo da Somália em uma Copa masculina . Com visto diplomático e passaporte especial, Artan desembarcou em Miami no dia 6 de junho. Foi barrado pela Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA (CBP, na sigla em inglês) por “preocupações de verificação”, e deportado para Istambul
.
Questionado sobre o caso, Infantino respondeu em sua entrevista coletiva na Cidade do México: “Talvez seja bom, às vezes, só ‘dar um tempo’, relaxar. A FIFA não pode ditar a governos o que fazer com suas regras de visto” . A declaração caiu como um balde de água fria. Críticos rebateram dizendo que a entidade tem, sim, poder de barganha para garantir o acesso de profissionais credenciados
. (Como consolo, a UEFA escalou Artan para apitar a final da Supercopa Europeia em agosto
.)
O caso Artan foi o mais visível, mas não foi isolado. Desde o retorno de Trump ao poder, os EUA impuseram novas restrições de viagem a cidadãos de vários países, incluindo ao menos quatro classificados para a Copa: Senegal, Costa do Marfim, Irã e Haiti . Os impactos diretos foram:
As polêmicas extrapolaram o campo e ganharam vozes de peso.
A combinação de barreiras de visto com valores proibitivos de ingressos gerou uma sensação de exclusão. Partidas mais cobiçadas ultrapassaram a barreira dos US$ 1.000 (cerca de R$ 5.500 na cotação da época). Até mesmo Trump, aliado de Infantino, reclamou: disse ao New York Post que não pagaria esse valor para ver a estreia dos EUA .
A equação “visto barrado + preço nas alturas” consolidou entre os fãs a percepção amarga de que esta é uma “Copa para eles, não para nós” . A atmosfera festiva, lema histórico do torneio, deu lugar a um clima de ressaca — mesmo antes de a bola rolar.
A Copa de 2026 entrou para a história pelo tamanho: 48 seleções (eram 32 até 2022), 104 jogos e três nações anfitriãs. Mas a dimensão épica contrasta com um campo minado de questões geopolíticas e éticas. O torneio mal começou e já é apontado como um “novo fundo do poço” para o futebol e um laboratório do que acontece quando o espetáculo esportivo se curva inteiramente ao poder político.