Os produtores do Golfo foram forçados a interromper cerca de 7,5 milhões de barris por dia (b/d) em março, número que subiu para 9,1 milhões de b/d em abril. A oferta global de petróleo despencou 10,1 milhões de b/d naquele mês.
O Brent, referência internacional, disparou até o pico de US$ 138 por barril em 7 de abril.
O ponto de Sawan é que essa crise é uma prévia brutal, e não uma anomalia. “Os preços vão subir”, disse ele, descrevendo o cenário como “a história dos próximos cinco a dez anos”. O fechamento do estreito simplesmente acelerou uma trajetória que os fundamentos de oferta e demanda já haviam colocado em marcha.
Enquanto os holofotes estavam no conflito, Sawan apontou diretamente para a sede mundial por energia como o verdadeiro motor de longo prazo. O apetite global por petróleo não está diminuindo — é estruturalmente robusto. Mesmo com a previsão da Administração de Informação sobre Energia dos EUA (EIA, na sigla em inglês) de que os preços elevados e iniciativas governamentais devem reduzir a demanda global em cerca de 1 milhão de b/d este ano, trata-se de uma destruição de demanda como resposta a preços extremos, não uma mudança definitiva de comportamento.
A lógica de Sawan é: uma vez que os preços se estabilizem — ainda que em patamares elevados —, o crescimento subjacente da demanda das economias em desenvolvimento e da atividade industrial será retomado.
Talvez a frase mais impactante dita por Sawan tenha sido esta: “Todo o petróleo e gás fácil já foi encontrado”. É um reconhecimento franco de um problema estrutural de oferta. A era dos campos de petróleo gigantes, de baixo custo e que jorravam com mínimo esforço chegou ao fim. A nova produção vem cada vez mais de projetos complexos em águas profundas, de fontes não convencionais como o xisto ou de regiões politicamente instáveis — todas com custos mais altos e prazos de desenvolvimento mais longos. Isso torna a oferta menos elástica e mais propensa a pressões duradouras sobre os preços.
O ciclo de esgotamento é visível nos dados. A EIA confirmou que os estoques globais de petróleo estão despencando — a um ritmo médio de 8,5 milhões de b/d em alguns períodos de projeção. Em maio, o banco J.P. Morgan alertou que os estoques poderiam atingir níveis perigosamente baixos até setembro se o estreito permanecesse fechado.
Essa sangria nos estoques deixa o mercado com reservas mínimas, o que significa que qualquer choque de oferta futuro — geopolítico ou não — se traduzirá em disparadas de preço muito mais rapidamente do que no passado.
Apesar de um processo de negociação de cessar-fogo que esfriou o pânico mais agudo, o Brent permanece muito acima da faixa “ideal” de estabilidade citada por Sawan, de US$ 60 a US$ 70 por barril. No início de junho de 2026, o Brent era negociado por volta de US$ 94 a US$ 97/barril, e o WTI perto de US$ 91/barril. Em 9 de junho, o Brent recuou momentaneamente para US$ 92,37.
Esses níveis, mais de US$ 30 acima do topo da faixa “ideal”, sinalizam que os mercados estão precificando um aperto persistente, não apenas um prêmio de risco passageiro pelo conflito.
O formato da curva de preços futuros reforça essa percepção. A EIA projeta que o Brent terá um preço médio de US$ 89/barril no quarto trimestre de 2026 e de US$ 79/barril em 2027 — ainda acima do teto de US$ 70 mencionado por Sawan. Isso significa que até a previsão oficial do governo americano espera que os preços permaneçam estruturalmente mais altos do que aquilo que o CEO de uma das maiores petroleiras do mundo considera um equilíbrio estável.
Os resultados do primeiro trimestre de 2026 da Shell escancaram a realidade financeira desse regime de preços. A empresa reportou lucro ajustado de US$ 6,92 bilhões — alta de 24% na comparação anual, o dobro do trimestre anterior e o maior em dois anos. A companhia citou explicitamente ganhos ligados à guerra no Oriente Médio.
A divisão de químicos e produtos, que inclui refino e comercialização de petróleo, registrou US$ 1,93 bilhão de lucro, destruindo as expectativas de analistas, que eram de US$ 1,24 bilhão.
Esses números são relevantes para a tese de Sawan. Quando uma grande petroleira integrada consegue gerar quase US$ 7 bilhões de lucro em um único trimestre durante uma crise de oferta, o incentivo imediato para inundar o mercado com nova produção barata diminui. Preços elevados sustentam fluxos de caixa robustos, que por sua vez alimentam a distribuição aos acionistas — a Shell aumentou seus dividendos em 5% e devolveu US$ 5,3 bilhões aos acionistas no primeiro trimestre. Essa lógica financeira reforça a rigidez estrutural dos preços elevados: os sinais econômicos do setor não apontam para uma resposta rápida do lado da oferta.
Surgiu, no entanto, um contrapeso importante. Em maio, a AIE alertou que a demanda global de petróleo deve agora sofrer uma contração de 420.000 b/d em 2026 na comparação anual — uma inversão brusca em relação às expectativas anteriores à guerra. O relatório STEO de junho da EIA ecoou essa visão, cortando sua projeção de demanda em 1,1 milhão de b/d.
Os preços elevados dos combustíveis, a menor disponibilidade e medidas governamentais de conservação, particularmente na Ásia, estão destruindo a demanda na margem.
Isso cria a tensão central na previsão de longo prazo de Sawan. Se os preços permanecerem altos por tempo suficiente, eles acabarão por curar o próprio crescimento da demanda que ele cita como seu principal motor. A própria EIA projeta que a demanda reduzida poderá limitar os aumentos de preço decorrentes da interrupção em Ormuz. A visão de Sawan parece ser a de que essa destruição de demanda é temporária e induzida pelo preço, enquanto as forças estruturais da industrialização e do crescimento populacional nas nações em desenvolvimento se reafirmarão assim que o petróleo se estabilizar — ainda que em um patamar mais elevado.
A projeção de Sawan desenha um mundo em que o petróleo barato é uma lembrança histórica, não um patamar para o qual os mercados retornarão. O Estreito de Ormuz pode eventualmente ser reaberto, mas a arquitetura mais profunda do mercado de petróleo — declínio das reservas convencionais, longos ciclos de investimento e crescimento resiliente da demanda — sugere que os preços permanecerão sob pressão estrutural de alta. A própria estratégia da Shell reflete essa visão: a empresa planeja manter a produção de petróleo estável enquanto investe em gás natural liquefeito e energias renováveis, apostando que os hidrocarbonetos continuarão sendo a espinha dorsal da energia por décadas.
Para consumidores, empresas e formuladores de políticas públicas, a implicação é clara. Os dias do petróleo a US$ 60 como um equilíbrio natural podem ter acabado. A questão não é se a crise atual terminará, mas em que patamar de preço o novo normal se estabelecerá quando isso acontecer.