A metalurgia do pó consiste em criar componentes metálicos de alta resistência comprimindo pós metálicos no formato desejado e depois aquecendo-os. Se o pó inicial contiver impurezas microscópicas, essas falhas são incorporadas à peça final. Neste caso, a contaminação — identificada como partículas microscópicas de ferro — foi introduzida no pó usado para fabricar os discos dos estágios 1 e 2 da turbina de alta pressão (HPT), assim como discos do compressor de alta pressão (HPC)
. Esses componentes foram produzidos entre o quarto trimestre de 2015 e o terceiro trimestre de 2021
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Sob o calor extremo e o estresse rotacional dentro de um motor a jato, essas impurezas microscópicas criam pontos de tensão que podem evoluir para rachaduras. O pior cenário possível é uma falha não contida do disco, na qual fragmentos em rotação perfuram a carcaça do motor — um evento catastrófico. O problema foi rastreado pela primeira vez a partir de uma falha não contida em um motor IAE V2500 em março de 2020, um incidente que acabou levando os investigadores até a produção da instalação da HMI . Na época, o CEO da RTX, Gregory Hayes, reconheceu a falha no processo de triagem: "Nós, de alguma forma, introduzimos um contaminante no pó… Mas não era um contaminante detectável pelos nossos métodos tradicionais de teste"
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Aproximadamente 3.000 motores das famílias PW1000G e IAE V2500 devem conter peças afetadas . Para o programa A320neo, o principal impacto é na variante PW1100G-JM. O recall já aterrou quase 550 aeronaves em todo o mundo, e as visitas às oficinas de reparo podem levar aproximadamente 360 dias para serem concluídas, conforme divulgado pela JetBlue em um documento à CVM americana (SEC)
. A recuperação total da frota não é esperada antes de 2030
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Antes de a crise dos motores se agravar, a Airbus tinha como meta de longo prazo uma taxa de produção de 75 jatos da família A320 por mês até o final de 2025 ou início de 2026 . As interrupções na cadeia de suprimentos causadas pela pandemia e depois o recall do pó metálico tornaram essa meta impossível.
Em fevereiro de 2026, a Airbus reduziu formalmente sua meta para um intervalo de 70 a 75 aeronaves por mês, com o prazo adiado para o fim de 2027 . Em comunicados oficiais, a Airbus foi direta: "A incapacidade da Pratt & Whitney de se comprometer com o número de motores encomendados pela Airbus está impactando negativamente as projeções deste ano e a trajetória de aceleração"
. A taxa de produção real atual para a família A320neo gira em torno de 60 unidades por mês
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Em junho de 2026, o CEO Guillaume Faury já expressava dúvidas até mesmo sobre essa meta mais modesta, afirmando que o cronograma de 2027 é incerto porque a Pratt & Whitney pode não conseguir fornecer motores suficientes para alcançá-la . Os resultados do primeiro trimestre de 2026 da empresa reafirmaram o plano atual, mas enfatizaram que "a Pratt & Whitney continua sendo o principal fator determinante da trajetória de aceleração, impactando tanto 2026 quanto 2027"
. A fabricante agora planeja se estabilizar na taxa 75 "a partir de então", uma palavra que Faury, de forma significativa, deixou em aberto para interpretação.
Diante desse cenário conturbado, a Airbus estabeleceu uma meta agressiva de entregas. Para 2026, a companhia pretende entregar cerca de 870 aeronaves comerciais, um recorde que superaria o pico pré-pandemia de 863 jatos entregues em 2019 . Isso representa um aumento de aproximadamente 10% sobre as 793 aeronaves entregues em 2025
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Financeiramente, a meta está atrelada às projeções mais amplas da Airbus: um EBIT Ajustado de cerca de €7,5 bilhões e um fluxo de caixa livre antes do financiamento de clientes de cerca de €4,5 bilhões . Na indústria aeroespacial, o reconhecimento da receita é acionado principalmente no momento da entrega da aeronave, então atingir a marca de 870 jatos é fundamental para a posição de caixa da empresa.
No entanto, a matemática para atingir essa meta é assustadora. Até o início de maio de 2026, a Airbus havia feito apenas 181 entregas no ano. Para chegar a 870, a fabricante precisaria entregar 690 aeronaves nos oito meses restantes, o que exige uma média superior a 85 aeronaves por mês . Isso é especialmente desafiador se considerarmos que fevereiro registrou apenas 35 entregas, um ponto baixo que criou uma lacuna significativa que os meses seguintes precisam cobrir
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Analistas já classificam a meta como arriscada. Quando a projeção de 870 foi anunciada, ela já estava abaixo das cerca de 880 entregas previstas pelos especialistas do mercado . A própria Airbus reconheceu que as restrições no fornecimento de motores pela Pratt & Whitney eram o fator limitante, afirmando que o número teria sido maior "se os suprimentos de motores tivessem chegado conforme o esperado"
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A frustração pública dos executivos da Airbus já vinha crescendo há meses. Em janeiro de 2026, o então CEO da divisão de aeronaves comerciais, Christian Scherer, alertou que nenhum acordo de fornecimento "para o futuro previsível" havia sido fechado com a Pratt & Whitney, e que as entregas de motores estavam chegando "muito, muito atrasadas" . Em fevereiro, o CEO Faury declarou que a perspectiva de entregas da Pratt & Whitney estava "significativamente abaixo de seus compromissos anteriores"
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O conflito escalou de forma decisiva em março de 2026, quando a Airbus passou a buscar formalmente indenização financeira da Pratt & Whitney e de sua controladora RTX . Segundo fontes a par do assunto, a disputa central é sobre a alocação dos motores: a Airbus acredita que a Pratt & Whitney está priorizando o reparo e a revisão dos motores já em operação que estão parados, em vez de entregar novos motores para as linhas de produção da Airbus
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Esse conflito de alocação coloca a fabricante de motores em uma posição insustentável. Companhias aéreas com jatos no chão e passageiros frustrados exigem reparos rápidos para voltar a voar. Ao mesmo tempo, a Airbus precisa de motores novos para acoplar às centenas de fuselagens de A320neo prontas que estão estacionadas sem motores em seus pátios. A ação judicial sinaliza que a Airbus não aceitará mais ficar no lado perdedor dessa equação de alocação sem ser compensada. O pedido de indenização pode acabar em arbitragem e representa uma das disputas mais relevantes entre fornecedor e cliente na aviação comercial moderna .
O custo financeiro para a RTX já é enorme. O impacto financeiro bruto do problema do pó metálico disparou para algo entre US$ 6,0 e US$ 7,0 bilhões . Para a Airbus, as restrições vão muito além do ano corrente. A fila de reparos da Pratt & Whitney para os motores contaminados deve se estender até 2026 e além, e a empresa já reconheceu que estará trabalhando nesse problema "até bem depois de 2026"
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A crise já contribuiu para turbulências financeiras mais amplas. Em fevereiro de 2026, as ações da Airbus caíram 6% após o anúncio da meta de produção reduzida e da incerteza contínua sobre os motores . Até o fim de março, alguns relatórios indicavam que as ações já haviam acumulado uma queda de 20% no ano
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Para a Airbus, o caminho adiante exige navegar um equilíbrio delicado. A empresa precisa manter suas linhas de produção em movimento com os motores que recebe, preservar a credibilidade com os clientes aéreos que também sofrem com atrasos em suas próprias entregas, e extrair do seu fornecedor termos que reflitam melhor a gravidade da crise. Com o programa de reparo do pó metálico se estendendo até 2030, este único defeito de fabricação em uma pacata cidade industrial de Nova York continuará moldando o mercado global de jatos de corredor único pelo resto da década.