Esse cenário simplesmente desabou. Em vez de um pouso suave nos juros americanos e uma leve depreciação do dólar, o carry trade agora luta contra um Fed agressivo, um dólar que ressurge com força e um choque inflacionário impulsionado pela energia, que ameaça diretamente as moedas e a dívida dos países emergentes.
A mudança mais impactante ao longo de 2026 foi a reavaliação, pelo mercado, da trajetória das taxas de juros do Federal Reserve. Ainda no fim de fevereiro, o mercado futuro projetava integralmente dois cortes de juros até o final do ano. Em maio, os preços já indicavam uma probabilidade de quase 67% de uma alta de juros pelo Fed até abril de 2027 — uma reviravolta completa provocada por uma inflação persistente e pela disparada dos preços de energia causada pela guerra no Irã . A maioria do mercado futuro agora espera pelo menos uma alta de 0,25 ponto percentual até o fim de 2026, segundo o CME FedWatch
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O novo presidente do Fed, Kevin Warsh, que assumiu o cargo em maio, até agora reforçou essa guinada mais dura. Sua primeira semana sinalizou uma postura mais rígida e baseada em regras do que os mercados esperavam . Warsh afirmou publicamente que a inflação "não está indo na direção certa" e apoiou a remoção do viés de flexibilização monetária do comunicado oficial do Fed
. Ele herdou um comitê que já caminhava para uma posição mais restritiva: a declaração do FOMC (o comitê de política monetária) de abril já trazia um viés neutro-para-agressivo, após manter a taxa básica no intervalo de 3,5% a 3,75% ao ano
. Vários dirigentes do Fed já sinalizaram abertura para aumentar os juros, caso a inflação elevada persista
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Para o carry trade de emergentes, um Fed agressivo é uma ameaça direta. Taxas mais altas nos EUA tornam os ativos em dólar mais atraentes e encarecem o custo de se endividar na moeda americana — um golpe duplo para as moedas emergentes, que dependem do fluxo de capital em busca de retornos mais altos.
Um dólar mais fraco era a premissa fundamental por trás das apostas otimistas no carry trade este ano. Muitos analistas projetavam uma depreciação suave da moeda americana ao longo de 2026, apostando em um ambiente favorável para o câmbio de emergentes . As estratégias de carry acumulavam alta de 1,3% no ano até o fim de janeiro de 2026, com investidores apostando em moedas como o real brasileiro, o rand sul-africano e a libra egípcia
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Essa premissa ruiu de forma estrondosa. O dólar se fortaleceu com a expectativa de que o Fed continuará paciente no combate à inflação e poderá até subir os juros . A State Street Global Advisors descreveu a dinâmica em abril: a escalada dos riscos de guerra e as disrupções energéticas estão reforçando a força do dólar, com uma probabilidade maior de valorização sustentada ao longo de um ou dois trimestres
. A força do dólar mina diretamente os retornos do carry trade em EM porque uma depreciação, mesmo que modesta, nas moedas emergentes de alto rendimento pode anular em semanas a vantagem obtida com as taxas de juros.
O último elemento desse aperto é a guerra entre EUA e Irã e o fechamento efetivo do Estreito de Ormuz, por onde, em tempos normais, passa cerca de 20% do comércio global de petróleo . O conflito começou em 28 de fevereiro de 2026 e resultou na maior interrupção no fornecimento de petróleo da história moderna dos mercados, com aproximadamente 20 milhões de barris por dia retirados do mercado
. A Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês) classificou a crise como a maior disrupção da história dos mercados de petróleo, com seu diretor-geral, Fatih Birol, descrevendo o impacto combinado como o equivalente à crise do petróleo de 1973 e ao choque energético de 2022 agindo juntos
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Esse choque energético retroalimenta o aperto sobre o carry trade de emergentes através de múltiplos canais:
A situação continua fluida. Um cessar-fogo em abril chegou a gerar esperanças de que parte da disrupção pudesse ser revertida, mas confrontos renovados e o status incerto das negociações entre EUA e Irã significam que o Estreito de Ormuz permanece como um risco real e imediato . Se a interrupção continuar, o banco de investimento chinês CICC alertou que o preço do barril de petróleo Brent pode ultrapassar os US$ 120, forçando um enorme consumo dos estoques globais e colocando ainda mais pressão sobre as economias emergentes
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A tabela abaixo mostra como as condições fundamentais para o carry trade de emergentes se deterioraram desde o começo do ano.
A mudança é drástica. No fim de 2025, grandes gestores estavam ativamente estendendo suas posições de carry trade para 2026, na expectativa de que a combinação de um Fed dovish (inclinado a cortar juros) e baixa volatilidade manteria a estratégia lucrativa . Em meados de 2026, essas premissas foram substituídas por um regime de risco de alta de juros, força do dólar e a mais severa crise energética em décadas.
A perspectiva para o carry trade de emergentes não está selada. Alguns fatores podem aliviar a pressão:
A conclusão é que o carry trade de mercados emergentes saiu de um ambiente favorável, de dólar fraco e baixa volatilidade, para uma posição muito mais ameaçada. A combinação de um Fed agressivo sob Kevin Warsh, um dólar fortalecido e um enorme choque do petróleo centrado no Estreito de Ormuz é estruturalmente hostil para essa estratégia. Uma resolução da crise energética poderia trazer algum alívio, mas, por enquanto, o cerco está se fechando.