Quando se fala em desmatamento minerário global, ouro e carvão ainda reinam como os maiores vilões históricos. Juntos, respondem por mais de 70% de toda a perda florestal associada à mineração entre 2001 e 2019 .
No entanto, os minerais essenciais para a transição energética — cobre, cobalto e lítio — passaram a causar desmatamento em ritmo mais acelerado do que o carvão nos últimos anos . As minas de cobre e cobalto na República Democrática do Congo (RDC) são um dos epicentros dessa nova crise
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Veículos elétricos, baterias, painéis solares e turbinas eólicas dependem de um cardápio voraz de minerais. A Agência Internacional de Energia projeta que a demanda por cobalto e lítio pode aumentar em até 40 vezes até 2040 . O problema é que, no rastro dessa corrida, as florestas da África — em especial a Bacia do Congo — estão desaparecendo cada vez mais rápido
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Isso cria o que especialistas chamam de paradoxo da sustentabilidade: as tecnologias projetadas para reduzir as emissões globais de carbono estão, na prática, causando desmatamento massivo e liberando CO₂ no momento da extração mineral . Um estudo complementar na Nature Communications (dezembro de 2025) calculou que o desmatamento induzido pela mineração no mundo gerou emissões de 0,75 Pg de CO₂, minando parte dos benefícios climáticos que a transição promete entregar
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Os números oficiais escondem um universo ainda mais preocupante. Mais da metade (50,29%) do desmatamento ligado à mineração está associada a atividades informais, artesanais ou simplesmente não registradas . No leste da RDC, por exemplo, a mineração artesanal responde por pelo menos 6,6% do desmatamento total da região — um impacto que, até pouco tempo atrás, era invisível aos satélites
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“Mineradores artesanais chegam a regiões remotas, abrem um garimpo e, em pouco tempo, o entorno se transforma: surgem roças, acampamentos, estradas informais. A mina funciona como uma âncora que puxa o desmatamento para dentro da floresta primária”, descreve o estudo .
A Bacia do Congo é o segundo maior pulmão verde do planeta, atrás apenas da Amazônia. Seu papel na absorção de carbono e na regulação do clima global é insubstituível. Mas a expansão minerária — alimentada em boa parte pela demanda da transição energética mundial — está corroendo esse ativo natural a uma velocidade que as políticas de conservação não conseguem acompanhar .
O estudo da Nature não pede o fim da mineração, mas exige transparência, monitoramento e regulação muito mais rigorosos. “Não podemos simplesmente trocar emissões de escapamento por desmatamento no Congo. A transição precisa ser limpa do começo ao fim, e isso inclui a origem dos minerais”, resumem os pesquisadores .
Enquanto governos e mercado não encararem o problema de frente, a energia “verde” continuará carregando uma sombra marrom — a das florestas que tombam longe dos holofotes.