A campanha para ouvir sinais artificiais do 3I/ATLAS foi uma operação coordenada entre quatro grandes observatórios, cada um trazendo uma força única para a missão. O esforço combinado resultou no mais profundo escrutínio por tecnossinaturas já feito em um objeto interestelar.
Allen Telescope Array (ATA): Nos EUA, o Instituto SETI usou seu conjunto de antenas na Califórnia para observar o cometa logo após sua descoberta em julho de 2025. Ao longo de 7,25 horas em cinco sessões, o ATA escaneou frequências de 1 a 9 GHz utilizando o novo pipeline bliss. Inicialmente, quase 74 milhões de "sinais" de banda estreita foram detectados. Esse número foi drasticamente filtrado para remover interferência de radiofrequência (RFI) terrestre e, com um sofisticado código de localização espacial, restaram apenas 211 candidatos. Cada um foi inspecionado visualmente por um ser humano e, ao final, todos foram traçados de volta a fontes de RFI na Terra. A não detecção estabeleceu um limite máximo para um transmissor isotrópico no cometa entre 10 e 110 watts .
Telescópio Green Bank (GBT): A busca mais sensível aconteceu em 18 de dezembro de 2025, um dia antes da máxima aproximação do cometa com a Terra, a uma distância de cerca de 167 milhões de quilômetros. O GBT, com seus 100 metros de diâmetro, é o maior radiotelescópio totalmente direcionável do mundo. Integrante do projeto Breakthrough Listen, ele escaneou de 1 a 12 GHz. Usando o pipeline turboSETI, ele sinalizou apenas 9 eventos após uma filtragem por localização, todos rapidamente descartados como RFI. Esta varredura estabeleceu a restrição mais rigorosa de toda a campanha: nenhum transmissor artificial de onda contínua foi detectado abaixo de um nível de cerca de 0,1 watts (100 miliwatts). Isso equivale, grosso modo, a um décimo da potência de um celular comum na localização do cometa .
MeerKAT: Na África do Sul, o conjunto MeerKAT observou em novembro de 2025 na faixa de 900 a 1670 MHz, em coordenação com observações da linha natural de hidroxila (OH). Seu limite de sensibilidade foi extraordinariamente baixo, cerca de 0,17 watts .
Parkes (Murriyang): Na Austrália, o telescópio Parkes conduziu três sessões entre julho e outubro de 2025, cobrindo de 704 a 4032 MHz. Uma análise relatou uma sensibilidade de aproximadamente 5 watts .
Em todas as instalações e frequências, o veredito foi unânime e definitivo. "Nenhuma detecção confiável de tecnossinaturas de rádio de banda estreita originadas do 3I/ATLAS" foi encontrada, conforme relatou a equipe do GBT . O Instituto SETI concluiu que o objeto se comporta como um cometa completamente natural .
A busca por sinais artificiais foi infrutífera, mas os radiotelescópios detectaram emissões naturais do 3I/ATLAS que foram cientificamente emocionantes. Não eram transmissões alienígenas, mas as linhas espectrais de moléculas sendo destruídas pela radiação ultravioleta do Sol — o mesmo processo que ilumina a coma e a cauda de qualquer cometa.
A detecção mais importante foi a das linhas de 18 centímetros do radical hidroxila (OH), em 1665 e 1667 MHz. Essa molécula, detectada pelo MeerKAT, é um subproduto direto da quebra da água pela luz solar, fornecendo uma assinatura química clara para rastrear a liberação de vapor d'água pelo cometa .
O silêncio de rádio artificial é perfeitamente consistente com o retrato detalhado de um cometa natural e rico em voláteis, montado por telescópios que observaram nos comprimentos de onda ultravioleta, infravermelho e milimétrico.
O observatório espacial Neil Gehrels Swift, da NASA, fez a primeira detecção definitiva de atividade de água em um objeto interestelar. No final de julho e início de agosto de 2025, o Swift detectou emissão ultravioleta de OH, um produto da fotodissociação da água. Surpreendentemente, isso ocorreu quando o cometa estava a 3,51 UA do Sol — muito além da distância típica onde o gelo de água sublima ativamente. A taxa de produção de água medida foi de cerca de 40 quilos por segundo (algo como o fluxo de uma mangueira de incêndio totalmente aberta), uma taxa incrivelmente alta para essa distância .
Observações do ALMA e do Telescópio Espacial James Webb (JWST) revelaram um inventário químico complexo. O ALMA detectou um enriquecimento impressionante em metanol — um tipo de álcool simples — em relação ao cianeto de hidrogênio, com uma proporção entre as maiores já medidas em qualquer cometa . Essas moléculas também exibiram padrões de liberação distintos: a produção de HCN estava esgotada no lado da coma voltado para o Sol, enquanto o metanol estava realçado ali, sugerindo uma química complexa no núcleo gelado .
O JWST confirmou a detecção de metano e notou que o cometa libera uma abundância muito maior de dióxido de carbono em relação à água quando comparado com cometas típicos do nosso sistema solar . A missão SPHEREx, da NASA, documentou um dramático "despertar" pós-periélio, com as emissões infravermelhas de água, CO₂ e gás CO aumentando por um fator de 20 apenas dois meses após o cometa contornar o Sol, indicando que um novo reservatório de gelos havia sido ativado .
A trajetória do cometa é inequivocamente hiperbólica, com uma excentricidade de 6,1371, confirmando sua origem fora do nosso sistema solar. Um período de rotação de aproximadamente 16,8 horas foi tentativamente determinado. Nenhuma aceleração não gravitacional que não pudesse ser explicada pela normal liberação de gases cometários foi observada .
A abrangente campanha do SETI e Breakthrough Listen de 2025–2026 sobre o 3I/ATLAS alcançou dois resultados significativos. Primeiro, demonstrou uma capacidade notável: se o 3I/ATLAS fosse uma sonda emitindo um sinal não mais potente que uma lâmpada, nós o teríamos visto. Segundo, e de forma mais profunda, ela forneceu o mais detalhado retrato químico já obtido de um visitante primitivo de outro sistema planetário. O objeto é um cometa natural, rico em água, moléculas orgânicas e gelos exóticos — uma cápsula do tempo congelada de uma estrela desconhecida, passando em silêncio pela nossa vizinhança celestial.