A transformação da Valeo não é apenas uma narrativa financeira. A empresa vem firmando parcerias concretas. Em novembro de 2025, anunciou uma colaboração estratégica com a fabricante de servidores 2CRSi para desenvolver soluções de refrigeração líquida para data centers de borda . Anteriormente, em janeiro de 2025, iniciou a produção comercial de Unidades de Reúso de Calor (HRU) compatíveis com a tecnologia de refrigeração líquida direta ao chip da ZutaCore
. Em um evento do setor em outubro de 2025, a Valeo apresentou trocadores de calor traseiros de alumínio que, segundo a empresa, são 80% mais leves e 30% mais eficientes do que as alternativas tradicionais de cobre
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O cenário global respalda esse movimento. A consultoria TrendForce projeta que a adoção de refrigeração líquida em data centers de IA saltará de 14% em 2024 para 33% em 2025, e o Goldman Sachs espera que 76% dos servidores de IA usem esse sistema até 2026 . Para uma empresa cujas ações haviam atingido a mínima de 16 anos apenas dois meses antes, a guinada para a IA representou uma forte reavaliação de seu valor de mercado
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Entre as grandes montadoras, o movimento da Ford rumo à infraestrutura de IA é o mais estruturalmente ambicioso. Em maio de 2026, a empresa lançou a Ford Energy, uma subsidiária focada em sistemas de armazenamento de energia em baterias (ESS) em escala de rede elétrica. A unidade é comandada por Lisa Drake, figura central no programa de veículos elétricos (EVs) da Ford, e representa um investimento de capital de US$ 2 bilhões .
O objetivo da Ford Energy é fabricar e vender sistemas de armazenamento montados nos Estados Unidos para concessionárias de energia, data centers e grandes clientes industriais. A meta de curto prazo é atingir uma capacidade anual de fornecimento de 20 GWh, com as primeiras entregas ao cliente previstas para o final de 2027 . A estratégia redireciona, de forma pragmática, a capacidade de produção de baterias que a Ford havia construído para veículos elétricos que não alcançaram os volumes de venda projetados
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A primeira chancela do mercado veio do Morgan Stanley. O analista Andrew Percoco estimou que a Ford Energy poderia valer cerca de US$ 10 bilhões em um cenário-base, ancorado em um EBIT estimado de US$ 588 milhões com a capacidade de 20 GWh e um múltiplo de 17,5 vezes . No cenário mais otimista, a avaliação chega a US$ 31 bilhões
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Logo em seguida, a Ford Energy assinou um acordo de estrutura (framework agreement) de cinco anos com a EDF Power Solutions América do Norte para fornecer até 20 GWh de sistemas de armazenamento, com entregas anuais a partir de 2028 . Com a notícia, as ações da Ford dispararam para uma máxima em 52 semanas
. Analistas também apontam a parceria da Ford com a fabricante de baterias CATL como uma vantagem estratégica e competitiva para a nova divisão de energia
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A BorgWarner, uma fornecedora de Michigan conhecida por turbocompressores e transmissões, seguiu um caminho diferente. Em fevereiro de 2026, assinou um Contrato Mestre de Fornecimento com a TurboCell, subsidiária da desenvolvedora de infraestrutura Endeavour, para fornecer um sistema de turbina geradora altamente modular .
O sistema foi projetado para servir como fonte de energia primária ou de reserva para data centers voltados à IA e outras aplicações de microgrids . Ele pode operar com gás natural, propano, diesel ou hidrogênio, e, segundo a BorgWarner, está em desenvolvimento há mais de três anos, aproveitando sua expertise em turbocompressão, gerenciamento térmico e eletrônica de potência
. A produção, programada para começar em 2027 na fábrica de Hendersonville, na Carolina do Norte, terá uma capacidade inicial de 2 GW
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O momento do acordo é oportuno. Com a desaceleração na adoção de veículos elétricos na América do Norte, a BorgWarner enfrenta mais desafios em seu mercado principal, fazendo da oportunidade nos data centers um novo e bem-vindo vetor de crescimento . Um relatório do Bank of America, citado em uma análise mais ampla do setor, projeta que só o mercado de chips de IA chegará a aproximadamente US$ 200 bilhões até 2027, sendo que esses chips demandam de 3 a 4 vezes mais energia elétrica do que CPUs tradicionais
. As turbinas da BorgWarner miram diretamente essa lacuna energética.
O reposicionamento da Aptiv é mais uma peça de engenharia societária do que um novo produto. Em janeiro de 2025, a empresa anunciou planos para separar seu negócio de Sistemas de Distribuição Elétrica (EDS) em uma nova empresa de capital aberto, que mais tarde foi batizada de Versigent . A cisão foi concluída em 1º de abril de 2026, com a Versigent sendo listada na Bolsa de Nova York sob o código VGNT
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A Aptiv descreveu a separação como parte da “contínua transformação de nosso portfólio”, permitindo que a empresa remanescente se concentre em tecnologias de margens mais altas, como software, sistemas avançados de assistência ao motorista (ADAS) e robótica . Análises de mercado enquadram o movimento como um refinamento do foco: ao remover as operações de menor margem, a Aptiv se aproxima das tendências emergentes de automação veicular
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É importante notar que, nos documentos disponíveis, a cisão da Versigent e sua lógica de arquitetura elétrica estão confirmadas, mas as fontes não apontam um contrato direto com data centers ou o lançamento de um produto para essa finalidade, como ocorre com Valeo, Ford e BorgWarner . Embora a cisão prepare o terreno para que tanto a nova Aptiv quanto a Versigent possam ser fornecedoras das complexas arquiteturas elétricas que os data centers exigem, a ligação direta com a infraestrutura de IA ainda é menos clara.
O que conecta essas quatro empresas é uma tese comum: décadas de experiência em eletrificação veicular, gestão térmica, eletrônica de potência e produção em larga escala podem agora ser redirecionadas para resolver os enormes desafios de energia e refrigeração dos data centers de IA.
A demanda subjacente não é especulativa. Uma análise do Bank of America aponta que os data centers (medidos em capacidade elétrica) cresceram a uma taxa composta anual de 18% entre 2018 e 2023, e a adoção da IA deve acelerar ainda mais essa trajetória . Energia e refrigeração são os gargalos que definirão a velocidade de expansão da infraestrutura de IA, e a base de fornecedores da indústria automotiva está em uma posição única para resolvê-los.
Para investidores e observadores do mercado, a conclusão é que o desenvolvimento da IA se expandiu muito além dos fabricantes de chips e provedores de nuvem. A próxima onda de beneficiários inclui empresas que, até pouco tempo atrás, eram associadas a turbocompressores, veículos elétricos e pastilhas de freio.