A atual sequência de eventos começou no fim de semana de 31 de maio para 1º de junho. Veículos de mídia ligados à IRGC relataram que as defesas aéreas iranianas haviam derrubado um drone americano MQ-1 Predator sobre o que descreveram como “águas territoriais iranianas” . Em resposta, o Comando Central dos EUA (CENTCOM) lançou o que chamou de “ataques de autodefesa” contra alvos militares iranianos. As ofensivas atingiram locais na cidade de Goruk e na Ilha de Qeshm, uma ilha estrategicamente vital perto do Estreito de Ormuz . O CENTCOM declarou que suas forças eliminaram defesas aéreas iranianas, uma estação terrestre de controle de drones e dois drones de ataque unilateral que representavam uma ameaça ao transporte marítimo .
A resposta da IRGC foi rápida e em várias frentes, ocorrendo entre 2 e 3 de junho. Teerã enquadrou todas as suas ações como retaliação direta aos ataques dos EUA na Ilha de Qeshm e a um suposto ataque americano a um petroleiro iraniano .
A reivindicação mais simbólica partiu da Força Aeroespacial da IRGC, que anunciou ter alvejado o quartel-general da Quinta Frota dos EUA no Bahrein, juntamente com uma base aérea e helicópteros americanos, usando mísseis e drones . A Guarda Revolucionária afirmou que essa operação foi uma resposta a um ataque americano a uma torre de telecomunicações da IRGC ao sul da Ilha de Qeshm .
O CENTCOM negou categoricamente a alegação. Segundo o comando militar americano, três mísseis iranianos lançados contra o Bahrein foram interceptados pelas forças de defesa aérea dos EUA e do Bahrein . O comunicado oficial do CENTCOM descreveu a reivindicação da IRGC de ter atingido o QG da Quinta Frota como “falsa” .
Simultaneamente, o Irã lançou múltiplos mísseis balísticos em direção ao Kuwait. Do ponto de vista técnico, este ataque parece ter tido um resultado ainda pior. O CENTCOM relatou que dois mísseis iranianos destinados ao Kuwait “caíram antes do alvo ou se desintegraram no trajeto” . No fim, todos os mísseis iranianos lançados nessa onda falharam em atingir seus objetivos, e nenhum militar americano ficou ferido .
Em uma operação marítima separada, porém coordenada, a Marinha da IRGC afirmou ter atingido um navio ligado aos EUA chamado Panaya com um míssil de cruzeiro . A IRGC declarou que esta foi uma retaliação ao que descreveu como um ataque aéreo americano contra um petroleiro iraniano perto do Estreito de Ormuz, que danificou a casa de máquinas da embarcação . A Guarda Revolucionária identificou o Panaya como uma embarcação “americano-sionista” e alertou que qualquer nova perturbação da segurança no Estreito de Ormuz teria uma resposta severa .
Para aumentar a confusão, um dia antes, em 1º de junho, a IRGC já havia reivindicado a responsabilidade por um ataque com míssil de cruzeiro contra o navio porta-contêineres MSC Sariska V, de bandeira panamenha, perto de Umm Qasr, no Iraque . No entanto, as investigações iniciais sobre esse incidente sugeriram que a explosão foi causada por uma falha mecânica interna, e não por um míssil. A tripulação foi relatada ilesa, lançando dúvidas sobre a alegação da IRGC .
As trocas militares ocorrem tendo como pano de fundo o mais sério esforço diplomático até agora para encerrar a guerra mais ampla entre EUA e Irã em 2026. O Paquistão e o Catar têm sido os principais mediadores, levando propostas de um lado para o outro entre Washington e Teerã .
No final de maio, os negociadores haviam chegado a um esboço de um memorando de entendimento (MOU) de 60 dias, projetado para congelar o conflito e construir confiança. A proposta de acordo, que aguardava a aprovação final do presidente dos EUA, Donald Trump, até 28 de maio, incluía provisões fundamentais :
Apesar do progresso, o acordo não havia sido finalizado. Em 29 de maio, Teerã negou publicamente que qualquer extensão final tivesse sido assinada, mesmo com relatórios sugerindo que o esboço só precisava da assinatura do presidente Trump . Os ataques de 2 e 3 de junho violam o espírito dessa trégua emergente, mostrando a profunda fragilidade da via diplomática. A contínua troca de tiros, mesmo com diplomatas em negociações ativas, ressalta como agentes sabotadores de ambos os lados podem inviabilizar o acordo antes mesmo de ele ser assinado.
Os eventos de 2 e 3 de junho destacam um abismo profundo e previsível entre as alegações iranianas e os relatórios de campo americanos. A narrativa da IRGC enfatiza ataques retaliatórios bem-sucedidos que projetam força e determinação. A narrativa dos EUA enfatiza o fracasso total dos ataques iranianos, exibindo a eficácia das defesas aéreas americanas e aliadas. Com a verificação independente sendo quase impossível em uma zona de guerra ativa, a verdade completa permanece contestada, mas a perigosa espiral de ação e reação é inegável.