A declaração identifica cinco perigos distintos, mas interligados. Cada um atinge um valor fundamental da prática matemática.
1. Provas Não Confiáveis e Inverificáveis
A matemática se baseia em provas que podem ser verificadas de forma independente e profundamente compreendidas. Os sistemas de IA, no entanto, produzem argumentos que parecem plausíveis, mas podem conter erros quase invisíveis — falsas demonstrações que os humanos têm dificuldade em detectar . O problema não se limita à geração de texto informal; ele também aparece em sistemas formais de prova quando a lógica subjacente é obscurecida
.
2. Colapso da Atribuição e Violação Desenfreada de Direitos Autorais
Os modelos de IA são treinados com trabalhos publicados por humanos sem consentimento e frequentemente falham em citar as fontes. O resultado é uma quebra sistêmica do crédito intelectual, tornando impossível rastrear a linhagem de uma ideia ou recompensar os pensadores originais. A declaração insiste que os autores devem procurar proativamente por trabalhos anteriores e, quando a atribuição completa não for possível, declarar explicitamente essa limitação .
3. Um Sistema de Duas Velocidades: Dependência e Desigualdade
À medida que a pesquisa de ponta se torna atrelada a modelos proprietários e computação de alto custo, a matemática enfrenta um futuro onde apenas laboratórios com muito financiamento podem competir. Isso cria uma desigualdade estrutural que mina o caráter tradicionalmente aberto e meritocrático do campo .
4. Exagero Publicitário que Induz a Erro as Políticas Públicas
Empresas de tecnologia, movidas por fortes incentivos comerciais, exageram as capacidades matemáticas de suas ferramentas . Elas anunciam resultados seguindo cronogramas de mercado, por meio de comunicados à imprensa, e não pela ciência revisada por pares. Usam ainda o desempenho em testes de matemática como propaganda de uma suposta inteligência geral — alegação que a declaração rejeita categoricamente
. Os autores pedem que os governos busquem avaliação de especialistas, não relações públicas, ao elaborar políticas científicas
.
5. Perda da Autonomia da Pesquisa
Quando interesses corporativos e a viabilidade técnica ditam o que deve ser estudado, a matemática corre o risco de perder o controle sobre sua própria agenda. As prioridades de pesquisa passam a mirar retornos comerciais de curto prazo, em vez da investigação profunda e movida por curiosidade, ameaçando a saúde da disciplina a longo prazo .
Em vez de apenas diagnosticar os problemas, a Declaração de Leiden prescreve normas específicas e acionáveis para quatro grupos-chave .
Pesquisadores Individuais devem:
Instituições, Periódicos e Agências de Fomento devem:
Governos devem:
A Indústria deve:
A Declaração de Leiden não trata apenas de matemática. Seus autores enquadram a luta como um prenúncio para a política científica em todas as áreas. Eles argumentam que os mesmos sistemas de IA que produzem provas não confiáveis também podem ser usados como armas de guerra e para vigilância em massa, e exortam os matemáticos a avaliar eticamente seu trabalho e até mesmo a se retirarem de projetos prejudiciais .
O alerta mais profundo é epistemológico: quando os cronogramas comerciais substituem a revisão por pares, e quando o exagero corporativo abafa a cautela dos especialistas, a compreensão pública do que constitui a verdade científica é distorcida . A matemática — um campo que há muito se orgulha de seus padrões claros e atemporais — está agora na linha de frente dessa batalha maior.
Quase todas as recomendações da declaração giram em torno de um único princípio: transparência. Sem saber quando e como a IA foi usada, a comunidade científica não pode verificar resultados, atribuir crédito ou defender seus próprios padrões. Com mais de 130 signatários no lançamento e respaldo institucional de órgãos como a União Matemática Internacional, a Declaração de Leiden já se tornou mais do que uma simples manifestação: é um rascunho funcional das normas que, segundo os matemáticos, a era da IA exige .