Um dos destaques mais simbólicos do ano foi a conquista de um novo território. Em 2025, o euro ultrapassou o dólar e se tornou a principal moeda para a emissão de títulos verdes e sustentáveis no mercado internacional . É um marco que reflete não apenas o apetite dos investidores por ativos sustentáveis, mas também a capacidade da União Europeia de definir padrões regulatórios — como a taxonomia verde — que são copiados ou respeitados em todo o mundo.
Apesar da liderança nos títulos verdes, o euro continua sendo o vice-líder incontestável, mas distante, no sistema monetário internacional. Sua participação nas reservas globais de moeda estrangeira manteve-se ao redor de 20%, enquanto o dólar americano domina com quase 58% do bolo . Para se ter uma ideia da diferença de escala, o mercado de títulos soberanos com nota de crédito AAA e AA da zona do euro soma cerca de € 6,6 trilhões — apenas um quinto do tamanho do mercado de títulos do Tesouro dos Estados Unidos .
O alerta mais contundente do relatório veio na carta de abertura, assinada pela presidente do BCE, Christine Lagarde. “Não há espaço para complacência. As forças de fragmentação estão se tornando mais pronunciadas”, escreveu ela . Lagarde não está falando de um risco abstrato. Ela se refere a um ambiente geopolítico em que a cooperação multilateral está dando lugar a jogos de poder bilaterais, ao protecionismo comercial e ao uso de moedas e sistemas de pagamento como armas geopolíticas.
“O euro não se tornará uma moeda internacional de verdade por padrão — ele precisa conquistar esse status”, afirmou Lagarde em um discurso anterior, ecoando a mesma urgência .
O cenário internacional abriu uma janela que a Europa pode aproveitar. O BCE observou que, a partir de março de 2025, o dólar se depreciou de forma mensurável em relação ao euro . Incertezas sobre a política comercial dos EUA e a própria solidez do papel do dólar como pilar do sistema financeiro global estão levando investidores a buscar alternativas.
Essa dinâmica pode abrir espaço para o euro desempenhar um papel internacional mais relevante, mas somente se a zona do euro fizer a lição de casa. E a lição, segundo Lagarde e o próprio relatório, é clara: completar a União dos Mercados de Capitais e a União Bancária. Esses projetos, que se arrastam há anos, são vistos como essenciais para criar um mercado financeiro europeu profundo, líquido e integrado, que sirva de lastro para uma moeda com ambições globais .
A mensagem final do relatório é um misto de otimismo cauteloso e pragmatismo: o euro avançou, fincou uma bandeira importante no universo das finanças sustentáveis, mas o caminho para rivalizar de fato com o dólar exige mais integração, produtividade e competitividade da economia europeia.