Os bancos centrais não estão esperando para ver o tamanho do estrago. No fim de maio e início de junho de 2026, uma guinada decisiva para uma postura mais dura (hawkish) já estava em andamento em três continentes.
O Banco Central da África do Sul (SARB, na sigla em inglês) tornou-se o primeiro grande banco central a apertar a política monetária de forma direta. Em 28 de maio, elevou sua taxa básica de juros (repo rate) em 0,25 ponto percentual, para 7,00%, marcando a primeira alta desde 2023 e uma reversão brusca de seu ciclo de cortes anterior . O gatilho foi claro: a inflação oficial ao consumidor (IPCA) saltou para 4,0% em abril, vindo de 3,1% em março, e o SARB prevê que a inflação dos combustíveis supere 18% no segundo trimestre . O banco agora projeta uma inflação média de 4,4% em 2026, bem acima da sua meta de 3% . O presidente do banco, Lesetja Kganyago, já sinalizou que não haverá acordo quanto ao objetivo de 3%, afirmando que a instituição "deve manter o foco em alcançá-lo" .
A nova presidente do Banco da Coreia (BOK), Shin Hyun-song, em sua primeira reunião de política monetária em 28 de maio, manteve a taxa básica em 2,50% pela oitava reunião consecutiva — mas passou uma mensagem clara de aperto futuro . Dois membros do comitê divergiram, votando por uma alta imediata de 0,25 ponto . A presidente Shin declarou a jornalistas que é "necessário aumentar a taxa de juros de referência em um momento apropriado no futuro" .
Os preços ao consumidor na Coreia do Sul subiram 3,1% na comparação anual em maio, uma máxima em 26 meses, impulsionados pela disparada dos custos do petróleo . Uma pesquisa do Korea Economic Daily com economistas mostrou que a maioria espera que o BOK faça ao menos duas altas de juros, levando a taxa para 3,0% até o final do ano .
Na Zona do Euro, a inflação de maio atingiu uma preliminar de 3,2%, vindo de 3,0% em abril . O Banco Central Europeu (BCE) manteve suas taxas de juros inalteradas — a de depósito em 2,00%, a de refinanciamento em 2,15% e a de empréstimo marginal em 2,40% — nas reuniões de março e abril . No entanto, o comunicado de 30 de abril reconheceu que a área do euro "entrou neste período de disparada dos preços de energia com a inflação em torno da meta de 2%" e reforçou o compromisso do banco em trazer a inflação de volta a 2% .
As probabilidades implícitas do mercado precificavam um aumento de 0,25 ponto percentual como quase certo na reunião do BCE de 11 de junho, alinhando-se com as previsões de economistas para o primeiro de vários passos de aperto monetário neste ano . As projeções da equipe do BCE de março já haviam elevado a estimativa de inflação geral para 2026 para 2,6%, citando os preços de energia mais altos causados pela guerra .
O Federal Reserve (Fed) dos EUA não subiu os juros, mas a guerra "influenciou materialmente a política monetária" ao restringir sua capacidade de flexibilizar e ao reforçar uma postura de juros mais altos por mais tempo . Em março de 2026, os mercados já esperavam que o Fed estivesse mais aberto a aumentos de juros no fim do ano, embora as autoridades do Fed tenham dito, nas atas da reunião de março, que ainda viam um corte como provável . O presidente do Fed de Minneapolis, Neel Kashkari, alertou que uma guerra prolongada pode alimentar a inflação e limitar a margem de manobra do banco central .
Ainda há lacunas de evidência. Não havia dados abrangentes de inflação e respostas de política monetária do Paquistão e das Filipinas nas fontes capturadas para o final de maio e início de junho de 2026. Essas lacunas são significativas para uma contabilidade completa dos efeitos colaterais econômicos da guerra.
A velocidade da guinada é notável. Antes de fevereiro de 2026, o SARB estava cortando juros, o BOK estava parado, mas com viés neutro, e o BCE via a inflação em torno de 2% . Em três meses, o aperto monetário já está em andamento ou já foi precificado. O mecanismo é brutalmente simples: um choque de oferta de energia eleva os preços do petróleo e os custos de frete, aumentando diretamente a inflação medida e ameaçando desancorar as expectativas de inflação, o que força os bancos centrais a reagir com juros mais altos, mesmo enquanto o crescimento desacelera .
A diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, capturou o novo estado de espírito no início de abril, alertando os bancos centrais a combater a inflação, mesmo à custa do crescimento, se as expectativas ameaçarem sair do controle . Essa lógica está se desenrolando agora, em tempo real.