Hoekstra não pediu o fim do processo da ONU, mas sinalizou a necessidade de uma via paralela. Embora tenha enfatizado que o trabalho deve continuar nas cúpulas, ele instou grupos menores de nações a tomarem medidas mais rápidas fora do sistema formal, que exige consenso . Isso reflete uma frustração crescente com uma estrutura multilateral onde um punhado de estados produtores de petróleo pode bloquear o progresso exigido por uma grande maioria de países.
O pano de fundo para a crítica de Hoekstra é o resultado da COP30, realizada em Belém, Brasil, em novembro de 2025. Lançada com grandes esperanças de colocar a ação climática "em alta velocidade", a cúpula expôs divisões profundas e persistentes . O fracasso central foi na mitigação: apesar de mais de 80 países apoiarem um roteiro vinculante para a transição energética, um bloco minoritário que inclui Arábia Saudita, Rússia e Índia bloqueou qualquer acordo nesse sentido . O texto final negociado não fez nenhuma referência a combustíveis fósseis, significando que, pelo segundo ano consecutivo, o principal fórum climático do mundo não conseguiu nomear explicitamente o principal motor da crise .
Em um acordo de última hora para salvar a cúpula, o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, anunciou que roteiros voluntários para a transição de combustíveis fósseis seriam desenvolvidos fora do processo formal da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC, na sigla em inglês) . Isso efetivamente terceirizou uma obrigação central para uma via não vinculante. Posteriormente, Colômbia e Holanda co-organizaram a primeira Conferência Internacional para a Eliminação de Combustíveis Fósseis, em Santa Marta, em abril de 2026, para avançar nesse trabalho . Um esforço paralelo para criar um roteiro vinculante para o desmatamento teve o mesmo destino, sendo igualmente relegado a uma iniciativa voluntária fora do arcabouço da ONU .
O financiamento, o eterno ponto de conflito nas negociações climáticas, teve um avanço significativo com o acordo para mobilizar US$ 1,3 trilhão anualmente até 2035 para a ação climática, além do compromisso de triplicar o financiamento para adaptação até 2035 . No entanto, a divisão fundamental permanece: as nações em desenvolvimento continuam argumentando que esse financiamento deve vir majoritariamente de doações públicas dos países desenvolvidos, em vez da ampla mistura de capital público e privado atualmente oferecida . Os detalhes operacionais da Nova Meta Coletiva Quantificada (NCQG, na sigla em inglês) sobre financiamento climático, acordada na COP29, ainda precisam ser definidos, tornando-se uma tarefa central para os negociadores em Bonn .
Nem todos os resultados de Belém foram decepções. O sucesso mais tangível foi o lançamento oficial do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (Tropical Forest Forever Facility - TFFF). Liderado pelo Brasil, país anfitrião da COP30, o TFFF é um mecanismo financeiro inovador que fará pagamentos anuais com base em desempenho para países com florestas tropicais que consigam proteger suas matas nativas .
O fundo angariou mais de US$ 5,5 bilhões em contribuições e endossos de 53 países, incluindo 34 nações de floresta tropical que abrigam mais de 90% das florestas tropicais do mundo . O TFFF tem uma meta ambiciosa de longo prazo de US$ 125 bilhões, com o objetivo de tornar a conservação florestal economicamente competitiva em relação ao desmatamento . O TFFF representa uma mudança de paradigma, deixando para trás promessas esporádicas de doadores e caminhando para um modelo de investimento autossustentável que combina capital público com investimento privado captado por meio de títulos verdes .
Um segundo instrumento, o Acelerador de Implementação Global, foi criado como uma estrutura voluntária para ajudar os países a cumprirem suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs, na sigla em inglês) por meio de assistência técnica e melhor acesso a financiamento . Embora seja simbolicamente importante por conectar promessas à ação prática, sua falta de força legal e de financiamento dedicado limita seu impacto imediato.
Com apenas cinco meses até a COP31, analistas descrevem a conferência de Bonn como um momento que "está a meio caminho da COP31" e que moldará as bases para as principais decisões da cúpula principal do ano . A agenda climática global é amplamente caracterizada como tendo entrado em uma "fase de implementação decisiva", onde o sistema deve provar que pode cumprir suas promessas .
Para ter sucesso, a SB64 deve fazer progressos tangíveis em várias frentes interconectadas:
A linguagem franca do Comissário de Clima da UE, Hoekstra, reflete uma profunda crise de confiança no modelo de consenso da ONU. Com o marco de 2035 do Acordo de Paris se aproximando, a lacuna entre a necessidade científica e a realidade política permanece imensa. A conferência de Bonn não é apenas uma reunião preparatória rotineira; é uma demonstração crítica de que o multilateralismo pode se reformar rápido o suficiente para gerenciar a crise que foi construído para resolver. Sem um progresso claro na operacionalização do financiamento, na solidificação dos roteiros voluntários e no fortalecimento do mecanismo de transição justa, a COP31 será forçada a confrontar os mesmos impasses estruturais, mas com menos tempo disponível.