A galáxia GN20 já era conhecida como uma das mais luminosas galáxias empoeiradas com intensa formação estelar do Universo distante, situada em um protocluster a um redshift de 4,055 . Até agora, sua espessa camada de poeira cósmica impedia que os telescópios enxergassem sua estrutura interna com nitidez.
Utilizando o Instrumento de Infravermelho Médio (MIRI) e a Câmera de Infravermelho Próximo (NIRCam) do JWST, a equipe liderada por Leindert A. Boogaard (Universidade de Leiden) conseguiu tornar a poeira virtualmente transparente. A análise isofotal — que mapeia como o brilho da galáxia se alonga e rotaciona a partir do centro — revelou uma barra estelar bem definida que se estende por 7 kiloparsecs de ponta a ponta .
Além disso, as observações simultâneas de estrelas, gás e poeira mostraram que a GN20 é dominada por bárions (matéria comum), que compõem 70±30% da massa total dentro da região da barra. E, surpreendentemente, 75±25% dessa massa bariônica ainda está na forma de gás — a galáxia está longe de ter esgotado seu combustível primordial .
No modelo cosmológico padrão ΛCDM, a formação de barras estelares é um processo lento, que costuma levar bilhões de anos. A física por trás disso é relativamente simples: para que uma barra se forme, o disco galáctico precisa ser dinamicamente frio e instável o suficiente para amplificar perturbações gravitacionais. Em galáxias jovens, onde há muito gás frio, esperava-se que essa instabilidade fosse suprimida — o gás atuaria como um amortecedor, estabilizando o disco e atrasando a formação de barras .
Até agora, algumas detecções de barras em galáxias precoces pelo JWST vinham sendo reconciliadas com o modelo padrão sob a hipótese de que essas galáxias já haviam consumido a maior parte de seu gás, facilitando a formação da barra. A GN20 vira essa explicação de cabeça para baixo: ela é extraordinariamente rica em gás e, mesmo assim, ostenta uma barra proeminente .
Em outras palavras, a GN20 reúne as duas características que deveriam ser mutuamente excludentes nos modelos atuais.
Diante desse paradoxo, os pesquisadores propõem uma nova perspectiva: em discos onde os bárions dominam o potencial gravitacional sobre a matéria escura, o gás turbulento pode na verdade acelerar a formação de barras .
O funcionamento é o seguinte:
Em suma, o próprio gás que se acreditava ser um freio à formação de barras pode, sob as condições certas, atuar como um acelerador.
Essa descoberta não é apenas uma curiosidade sobre uma galáxia distante. Ela tem implicações profundas para a nossa compreensão de como as galáxias se montam e evoluem:
Cronogramas revisados: Estruturas como barras e braços espirais podem ser muito mais comuns no Universo jovem do que se supunha. Isso significa que discos galácticos são capazes de amadurecer morfologicamente no primeiro bilhão de anos, um período que até recentemente era imaginado como caótico e desorganizado .
Evolução impulsionada por barras em alto redshift: Barras estelares são "funis" de gás — elas canalizam material para o centro galáctico, alimentando explosões de formação estelar nuclear e o crescimento de buracos negros supermassivos. Se barras já estavam operando a z~4, elas podem ter tido um papel central na construção de bojos galácticos e até mesmo no processo de extinção da formação estelar (quenching) muito antes do que os modelos permitiam .
Papel da matéria escura: A descoberta reforça uma imagem que vem emergindo na era JWST: muitas galáxias de alto redshift são dominadas por bárions em suas regiões centrais, desafiando as suposições sobre como os halos de matéria escura moldam a estrutura galáctica primitiva .
Necessidade de novas simulações: As simulações cosmológicas atuais precisarão incorporar tratamentos mais realistas da turbulência do gás e das frações elevadas de bárions em épocas primordiais para conseguir reproduzir estruturas como a barra da GN20 .
A barra da GN20 não é um caso isolado. Outras observações recentes, como a descoberta da galáxia espiral "Alaknanda" (também a z~4) e detecções de barras em galáxias com mais de 10 bilhões de anos, pintam um quadro consistente: o Universo jovem era muito mais capaz de gerar ordem e estrutura do que a teoria previa .
A cada nova observação do James Webb, os astrônomos são forçados a reconsiderar as escalas de tempo cósmicas e a física que governa a montagem das galáxias. A GN20, com sua barra paradoxalmente precoce e seu disco abarrotado de gás, é o mais novo — e talvez o mais eloquente — lembrete de que o cosmos ainda guarda surpresas que desafiam nossas melhores teorias.