O principal nó jurídico que impulsiona a correria da UE não vem de uma lei europeia, mas sim de uma lei americana. O Ato CLOUD (Clarifying Lawful Overseas Use of Data Act) dos EUA, de 2018, permite que as autoridades policiais americanas obriguem qualquer empresa com sede nos EUA a entregar os dados que ela controla — não importa em que lugar do mundo esses dados estejam fisicamente armazenados .
Isso cria um paradoxo para os governos europeus. Mesmo que as hiperescaladoras como Amazon, Microsoft ou Google armazenem dados do setor público europeu em servidores em Frankfurt ou Paris, por meio de uma subsidiária local, esses dados continuam legalmente ao alcance das autoridades americanas. Analistas apelidaram o problema de "maquiagem de soberania" (sovereignty washing): o marketing que promete localização de dados não consegue se sobrepor ao alcance extraterritorial da lei dos EUA . Some-se a isso incidentes de segurança que corroeram a confiança, como quando as próprias chaves de criptografia da CISA (agência de segurança cibernética americana) foram expostas meses antes
. Resultado: há um consenso entre os formuladores de políticas da UE de que apenas um provedor que não esteja sujeito ao alcance do Ato CLOUD pode oferecer soberania técnica de verdade.
O pacote, formalmente apresentado em 27 de maio após meses de adiamentos, junta quatro iniciativas que visam criar o que autoridades chamam de uma "pilha tecnológica europeia" integrada :
O CADA é a joia da coroa legislativa. Ele mira triplicar a capacidade de data centers da UE em um prazo de cinco a sete anos e, ponto crítico, irá definir legalmente o que é uma "nuvem soberana" pela primeira vez na legislação do bloco . O ato também cria uma política unificada de nuvem para administrações públicas e compras governamentais em toda a UE. Um rascunho vazado revela que o texto proporá critérios rígidos para licitações estatais "altamente críticas" com o objetivo de excluir Amazon Web Services, Microsoft Azure e Google Cloud desses projetos sensíveis
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É uma virada estratégica em relação ao primeiro Ato dos Chips, que mirava a expansão da oferta. A nova versão foca em estimular a demanda por semicondutores fabricados na Europa, em especial para aplicações de inteligência artificial . O arcabouço inclui mecanismos de agregação de demanda e ferramentas de gestão de crise. E vai além: contém dispositivos que permitiriam a Bruxelas forçar fabricantes de chips a priorizar pedidos da UE em detrimento de contratos privados já existentes durante uma crise
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O pacote se completa com uma estratégia dedicada a promover ecossistemas digitais europeus de código aberto como alternativa ao software proprietário americano, e um roteiro estratégico setorial para a adoção de IA no setor de energia .
O impacto mais concreto será sentido nas licitações de TI de governos nos 27 Estados-membros. As propostas vão restringir categoricamente o uso de plataformas de nuvem americanas para o processamento de dados sensíveis do setor público .
Apesar do impulso regulatório, analistas apontam que barreiras estruturais profundas tornarão a redução da dependência um processo caro e demorado.
O paradoxo do Ato CLOUD persiste. Mesmo uma migração bem-sucedida para um provedor 100% europeu não garante imunidade absoluta contra o Ato CLOUD. Se uma empresa americana estiver envolvida em qualquer ponto da cadeia de suprimentos do provedor, os dados ainda podem estar em risco legal, criando uma vulnerabilidade persistente e difícil de fechar .
Gravidade econômica e concentração de mercado. Quase 70% do mercado de nuvem da Europa está nas mãos das três hiperescaladoras americanas . Empresas e governos europeus estão profundamente integrados nos ecossistemas de AWS, Azure e Google Cloud, usando serviços avançados de IA e infraestruturas globais de borda que os provedores europeus menores simplesmente não conseguem igualar no momento. Uma migração rápida e forçada cria riscos reais de escassez de oferta, lacunas de desempenho e custos significativamente mais altos para a TI do setor público
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O espectro da fragmentação. Enquanto Bruxelas busca harmonização, os Estados-membros mantêm ampla autonomia sobre suas próprias compras. Isso gera um risco real de adoção desigual, com algumas jurisdições mantendo uma dependência de "porta dos fundos" na tecnologia americana e, assim, fragmentando o mercado único digital que o pacote pretende unificar .