Apesar do susto no índice cheio, o núcleo da inflação — que exclui itens voláteis como energia, alimentos, álcool e tabaco — recuou levemente para 2,2% . Isso indica que, por enquanto, o repasse para outros setores da economia ainda é contido. O problema, contudo, é que os choques externos continuam se acumulando.
O gatilho mais violento para a inflação veio do Oriente Médio. A guerra envolvendo o Irã, deflagrada no fim de fevereiro de 2026, interrompeu o tráfego de petroleiros no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do petróleo mundial .
O impacto nos preços foi imediato e brutal:
Enquanto a energia sobe de forma visível, há outro vetor de inflação menos comentado, mas igualmente perigoso: os eventos climáticos extremos. Um alerta da Oxford Economics mostra que a zona do euro enfrenta o pior choque de preços de alimentos entre as economias do G7 decorrente de secas, enchentes e ondas de calor .
Em termos práticos:
Na prática, a combinação de fertilizantes mais caros (por causa do gás natural) com quebras de safra está criando uma nova normalidade de alimentos mais caros para os europeus.
Diante desse cenário, o Banco Central Europeu teve que recalcular a rota. Em abril de 2026, o Conselho do BCE manteve a taxa de depósito em 2,00%, interrompendo o ciclo de cortes que vinha desde o ano anterior . Mas a pausa deve durar pouco.
Uma pesquisa da Reuters publicada em 13 de maio mostra que 59 de 70 economistas esperam uma alta de 25 pontos-base (0,25 ponto percentual) na reunião de 11 de junho, levando a taxa para 2,25% . Esse movimento já está amplamente precificado pelos mercados financeiros
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Bancos como Deutsche Bank e JPMorgan já revisaram suas projeções e agora esperam pelo menos duas altas de juros em 2026, provavelmente em junho e setembro .
A inflação mais alta está corroendo o poder de compra e as projeções de crescimento. A Comissão Europeia, em suas previsões de primavera de 2026, revisou a inflação da zona do euro para 3,0% no ano e cortou a projeção de crescimento do PIB para apenas 0,9% .
A Oxford Economics também reduziu sua estimativa para o consumo das famílias do G7 em 0,6 ponto percentual em 2026 e alerta que, mesmo após dois anos, o gasto das famílias ficará 0,3% abaixo da tendência .
Em resumo: o choque de energia veio para ficar enquanto durar o conflito no Oriente Médio, a pressão climática sobre os alimentos é estrutural e de longo prazo, e o BCE se prepara para apertar os juros num momento em que a economia europeia mal cresce. Para o consumidor, a mensagem é clara: a conta de luz, o tanque de combustível e a cesta de supermercado continuarão pesando no bolso por um bom tempo.