Planetas, no entanto, são diferentes. Corpos rochosos que se formam no disco protoplanetário retêm o lítio com o qual nasceram porque nunca atingem temperaturas altas o suficiente para queimá-lo. Quando uma estrela engole um planeta assim, esse lítio fresco é despejado na camada convectiva externa da estrela, uma região cuja temperatura é baixa demais para destruí-lo rapidamente. O resultado é um pico de lítio transitório, mas mensurável, que age como uma prova química cabal — uma verdadeira 'impressão digital' — de um evento recente de canibalismo planetário .
A equipe do Professor Jeffries confirmou que esses seis pontos fora da curva são, em todos os outros aspectos (brilho, posição e movimento), indistinguíveis de suas estrelas irmãs no aglomerado. Os níveis de lítio medidos apontam para que cada estrela tenha consumido entre 3 e 10 massas terrestres de material planetário rochoso e rico em voláteis — o equivalente a um ou mais planetas parecidos com a Terra ou um núcleo protoplanetário substancial .
Essa destruição planetária não é uma raridade. As seis estrelas ricas em lítio representam aproximadamente 2 a 3% das anãs vermelhas jovens nesses aglomerados, especificamente aquelas com temperaturas efetivas entre 3.560 °C e 4.045 °C . Isso sugere que engolir planetas com massa terrestre é uma parte relativamente comum do caótico início de um sistema planetário, durante seus primeiros 100 a 200 milhões de anos.
A descoberta nas estrelas jovens se encaixa em um cenário mais amplo e emergente de estrelas 'comendo' planetas ao longo de toda a sua vida. Em trabalhos complementares de 2025–2026, astrônomos da University College London (UCL) e da Universidade de Warwick usaram o telescópio espacial TESS, da NASA, para estudar quase meio milhão de estrelas . Eles descobriram que planetas gigantes em órbitas próximas são significativamente mais raros ao redor de estrelas gigantes vermelhas — astros que envelheceram e se expandiram. A interpretação clara, segundo o autor principal, Dr. Edward Bryant, é que as forças de maré arrastam os planetas internos para dentro conforme a estrela incha, destruindo-os antes ou durante a fase de gigante vermelha
. Em português claro: a estrela dá uma 'barrigada' e engole o que estiver por perto.
Juntas, essas duas linhas de evidência revelam um ciclo de vida contínuo de destruição planetária. No início, jovens anãs vermelhas consomem planetas rochosos durante o caos dinâmico da formação do sistema. Bilhões de anos depois, estrelas como o Sol consomem seus planetas gigantes ao se expandirem para gigantes vermelhas .
As implicações vão além de uma única descoberta. Primeiro, o método do excesso de lítio dá aos astrônomos uma 'prova do crime' química e confiável para detectar eventos específicos de canibalismo planetário, que antes eram apenas teóricos . Segundo, uma taxa de ocorrência de 2 a 3% durante a infância do sistema significa que esses eventos catastróficos são estatisticamente significativos, forçando os modelos de formação planetária a levar em conta a perda rotineira de 3 a 10 massas terrestres de material nos primeiros 200 milhões de anos
. Terceiro, quando combinado com as evidências das gigantes vermelhas, o canibalismo planetário surge não como uma anomalia do início ou do fim da vida estelar, mas como um processo contínuo que molda a arquitetura dos sistemas planetários por todo o tempo cósmico
.
Qualquer modelo bem-sucedido de como os sistemas planetários se formam e evoluem agora precisa explicar por que uma pequena porcentagem de sistemas recém-nascidos perde seus planetas rochosos internos para a estrela hospedeira, e por que a maioria dos planetas gigantes em órbitas próximas não sobrevive à transição de sua estrela para uma gigante vermelha. O lítio dentro de seis jovens estrelas nos deu um ponto de partida claro e observável para contar essa história.