Apesar de bela, essa foto não foi tirada apenas para enfeitar álbuns de astronomia. Ela é parte de um ambicioso programa de observação do Hubble focado em entender o "fluxo cósmico". Funciona assim: o universo está em expansão, mas essa expansão não é perfeitamente uniforme. A matéria não está distribuída de maneira homogênea, e a força gravitacional de estruturas gigantescas — como aglomerados de galáxias e concentrações massivas de matéria escura — puxa as galáxias vizinhas, criando verdadeiras correntes de movimento em grande escala. É esse desvio gravitacional da expansão regular que os cientistas chamam de fluxo cósmico .
Para mapear essas correntes ocultas em três dimensões, não basta apenas ver a posição de uma galáxia no céu; é crucial saber a que distância exata ela está. É aí que o Hubble entra com uma ferramenta engenhosa: usar estrelas gigantes vermelhas como "velas padrão". Uma vela padrão é qualquer objeto astronômico cujo brilho real (a luminosidade intrínseca) é conhecido com precisão. Ao comparar o brilho real com o brilho aparente que observamos da Terra, os astrônomos conseguem calcular a distância do objeto. É como saber que uma lâmpada de 100 watts sempre terá um brilho específico a 1 km de distância; se ela parecer mais fraca, sabemos que está mais longe .
As estrelas escolhidas para essa tarefa passam por uma fase muito específica de suas vidas. Quando uma estrela de baixa massa, como o nosso Sol, esgota o hidrogênio em seu núcleo e começa a queimar hélio, ela atinge um pico de luminosidade conhecido como ponta do ramo das gigantes vermelhas (TRGB, na sigla em inglês). A mágica é que esse pico máximo de brilho é notavelmente consistente para todas as estrelas nessa fase, tornando-as réguas cósmicas extremamente confiáveis .
O mesmo programa que observou a ESO 490-017 usa essa técnica para medir a distância de galáxias próximas, ajudando a calibrar com precisão o primeiro degrau da chamada "escada de distâncias cósmicas". Essa base é fundamental para toda a cosmologia. Recentemente, o Programa Carnegie-Chicago Hubble usou essa mesma técnica e obteve uma nova medição para a taxa de expansão do universo, a Constante de Hubble, caindo exatamente no meio de dois valores anteriores e conflitantes, intensificando um dos maiores debates da astronomia moderna: a tensão de Hubble .
Além de seu papel no mapeamento cósmico, galáxias anãs irregulares como a ESO 490-017 são tesouros científicos por si mesmas. Acredita-se que elas sejam dominadas por matéria escura, a substância misteriosa que compõe a maior parte da matéria do universo. Por isso, funcionam como laboratórios naturais ideais para estudar como as galáxias se formam e evoluem nas menores escalas, sem a interferência de processos complexos que ocorrem em galáxias maiores .
Observá-las em diferentes comprimentos de onda permite que os astrônomos entendam como as estrelas nascem em ambientes com poucos "metais" (na astronomia, qualquer elemento mais pesado que hélio) e baixa massa. Acredita-se que essas condições sejam muito semelhantes às que existiam no universo primordial, quando as primeiras galáxias estavam surgindo. É como ter uma janela para o passado do cosmos.
Por fim, o programa de observação não atende apenas à ciência do fluxo cósmico. Ele cria um arquivo de dados de longo prazo, um verdadeiro legado sobre os tipos de populações estelares presentes em galáxias próximas. Esse catálogo poderá ser usado por gerações de astrônomos para estudos que vão muito além dos objetivos originais da missão .