Diferente de outros países que têm leis de imagem codificadas, as celebridades indianas historicamente dependiam de ações de concorrência desleal ou de danos morais, um encaixe forçado para manipulações geradas por IA. Somente agora os tribunais começaram a fundamentar essa proteção no direito fundamental à dignidade, previsto no Artigo 21 da Constituição . Sem isso, ninguém tinha, de fato, o direito de controlar o uso comercial do próprio nome, imagem, voz ou gestual.
Os artigos 66C (furto de identidade) e 66D (falsidade ideológica digital) do Ato de TI são crimes que exigem a comprovação da intenção (dolo) de um indivíduo específico. Quando se trata de modelos sofisticados de IA operados anonimamente a partir de servidores no exterior, provar a intenção criminosa de alguém se torna uma missão quase impossível. Analistas jurídicos chamam isso de uma "falha fatal de aplicação" .
As regras para intermediários da internet de 2021 não obrigavam plataformas como Meta e Google a detectar ou rotular proativamente mídias geradas por IA. Emendas propostas em outubro de 2025 introduziram o conceito de "Informação Gerada Sinteticamente" e condicionam a imunidade (o chamado safe harbour) das plataformas ao cumprimento de obrigações de detecção e rotulagem. Na prática, porém, críticos dizem que essas regras são firmes no papel, mas frágeis na execução .
Em vez de esperar o Parlamento aprovar uma lei abrangente, a Suprema Corte de Deli se tornou o foro preferido das celebridades em busca de socorro emergencial. A estratégia segue um padrão agressivo e consistente: conceder liminares sem ouvir a outra parte (ex parte), determinar a remoção do conteúdo pelas plataformas em até 72 horas e ordenar que as big techs tratem as decisões judiciais como denúncias formais .
Em dezembro de 2025, Sunil Gavaskar obteve uma ordem que o tornou o primeiro esportista indiano a receber proteção judicial de direitos de personalidade. A decisão proíbe qualquer pessoa de usar seu nome, imagem, voz ou características físicas para qualquer fim comercial — inclusive deepfakes — sem autorização explícita . A Corte também determinou que plataformas como X (antigo Twitter), Facebook e Instagram tratassem sua queixa como formal e resolvessem o problema em sete dias, um prazo bem mais curto que o usual
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A família Bachchan conseguiu algumas das ordens mais abrangentes logo no início da ofensiva judicial. Em setembro de 2025, Aishwarya Rai Bachchan obteve uma liminar que proíbe o uso de seu nome, imagem, voz "ou qualquer representação por meio de IA ou tecnologias de deepfake", com remoção do conteúdo em 72 horas e identificação dos operadores dos perfis em 7 dias . Amitabh e Abhishek Bachchan garantiram proteções igualmente amplas, com os juízes ancorando as decisões no direito à dignidade constitucional, e não na propriedade intelectual tradicional
. Outros nomes como Anil Kapoor, Jackie Shroff e a cantora Asha Bhosle também conseguiram bloquear o uso indevido de seus rostos, vozes e até de bordões famosos
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No início de 2026, o gotejar de processos virou uma enxurrada. Em fevereiro, o tribunal estabeleceu uma linha firme no caso do ator Vivek Oberoi, concedendo ampla proteção contra perfis falsos, montagens e deepfakes . Em março, Gautam Gambhir, ex-jogador de críquete e deputado, moveu uma ação buscando proteção integral de personalidade e uma indenização de 2,5 crore de rúpias (cerca de R$ 1,6 milhão) por danos morais e uso comercial indevido
. Em maio, o juiz Tushar Rao Gedela concedeu uma liminar no caso do ator Arjun Kapoor mirando especificamente vídeos deepfake gerados por IA — alguns sexualmente explícitos — e ordenando que Google e Meta removessem o conteúdo e fornecessem dados dos usuários
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A situação atual é insustentável a longo prazo. O Judiciário está tapando um buraco legislativo com decisões provisórias caso a caso, mas essas são correções temporárias que dependem de as celebridades terem recursos (e paciência) para litigar. Não há definição jurídica do que é uma deepfake, não há um direito de personalidade codificado em lei, e não há um caminho criminal claro para processar criadores anônimos que operam de outros países .
As emendas de outubro de 2025 às Regras de TI representam a primeira tentativa do governo de criar um marco regulatório, com o reconhecimento formal de "informação gerada sinteticamente", a exigência de rotulagem visível (ocupando ao menos 10% da tela) e a obrigação de as plataformas usarem tecnologia de detecção. No entanto, juristas apontam que as regras são vagas, que obrigar o rastreamento da origem de um vídeo é tecnicamente muito difícil, e que depender do condicionamento do safe harbour para forçar a cooperação das big techs pode ser uma ferramenta de fiscalização bastante frágil .
Há um consenso crescente entre especialistas de que a Índia precisa de uma lei especial para deepfakes — ou, no mínimo, de uma reforma profunda do Ato de TI e do Código Penal — que criminalize a criação não consensual, imponha consentimento e transparência, estabeleça responsabilidades claras para as plataformas e exija salvaguardas técnicas como marca d'água e detectores de IA . Até que isso aconteça, a Suprema Corte de Deli seguirá sendo a arma mais poderosa — e também a mais improvisada — que as celebridades indianas têm para evitar que suas imagens sejam transformadas em vendedores virtuais sem seu consentimento.