O cerne do ultimato russo é a ameaça de desmantelar um acordo que, desde 2013, eliminou por tempo indeterminado as tarifas de exportação russas para o fornecimento de insumos críticos de energia e matéria-prima para a Armênia . Esse pacto é a espinha dorsal da relação econômica armênia com a Rússia, garantindo à pequena nação encravada no Cáucaso preços de gás e petróleo muito abaixo dos valores praticados no mercado europeu.
O momento da ameaça pública não foi coincidência. Ela veio no mesmo dia em que o presidente Vladimir Putin chegou ao Cazaquistão para uma visita de Estado de três dias (27 a 29 de maio), onde participa da reunião do Conselho Supremo Econômico Eurasiático, o órgão máximo da UEE, o bloco econômico liderado pela Rússia .
O assessor de política externa do Kremlin, Yury Ushakov, confirmou antes da viagem que Putin levantaria as ambições europeias da Armênia na cúpula, e que os líderes da UEE discutiriam a possível retirada de Yerevan do bloco . Essa pressão multilateral visa colocar a Armênia em uma posição insustentável: o país precisa escolher formalmente entre suas aspirações europeias e sua permanência na aliança econômica pós-soviética . De forma notável, o primeiro-ministro armênio, Nikol Pashinyan, optou por não comparecer à cúpula de Astana, enviando um vice-primeiro-ministro em seu lugar, uma afronta diplomática que evidencia a profundidade do racha .
A crise atual é o ponto culminante de um colapso de confiança que se arrasta há anos entre os dois aliados nominais. A causa fundamental foi o conflito de Nagorno-Karabakh de 2023. Quando o Azerbaijão retomou a região disputada em uma rápida operação militar em setembro daquele ano, a Rússia — aliada da Armênia por tratado na Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC) — não interveio militarmente. Tanto Yerevan quanto a população armênia interpretaram isso como uma traição profunda aos compromissos de defesa russos .
No rescaldo, a Armênia congelou sua participação na OTSC, recusou-se a sediar exercícios militares do bloco e começou a diversificar ativamente suas parcerias econômicas e de segurança, estreitando laços com a União Europeia, França, Índia e Estados Unidos. Essa reorientação geopolítica deu o impulso político para o atual movimento em direção à UE.
Em 26 de março de 2025, a Assembleia Nacional da Armênia aprovou uma lei que "lança o processo de adesão da República da Armênia à União Europeia", a qual foi sancionada e entrou em vigor no dia 4 de abril de 2025 . O primeiro-ministro Pashinyan, ao mesmo tempo que avança o processo, tem moderado consistentemente as expectativas, afirmando que qualquer pedido formal de adesão exigiria um referendo nacional e que o país deve primeiro se adequar aos padrões exigidos pela UE .
Essa trajetória para o Ocidente acelerou vertiginosamente em maio de 2026. Nos dias 4 e 5 de maio, Yerevan foi palco de um evento diplomático duplo histórico: a 8ª Cúpula da Comunidade Política Europeia, seguida pela primeira Cúpula dedicada UE-Armênia. A presença em Yerevan do presidente do Conselho Europeu, António Costa, e da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, foi um poderoso gesto de realinhamento simbólico. Na cúpula, Pashinyan afirmou que a Armênia "ficaria feliz em ser admitida na UE" .
Esta ameaça formal é mais do que apenas mais um pico de tensão; ela marca uma mudança fundamental na relação entre Rússia e Armênia.