Para os consumidores e empresas da zona do euro, o impacto é direto e doloroso. O Comissário Europeu para a Economia, Valdis Dombrovskis, estimou que o conflito pode reduzir o crescimento do PIB da União Europeia em 0,4 ponto percentual em 2026, enquanto adiciona até 1 ponto percentual à inflação . O temor não é infundado: em abril, o setor privado da zona do euro entrou em contração pela primeira vez em 18 meses, registrando seu pior desempenho desde o final de 2024
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Analistas de grandes bancos, como o UBS, classificam o momento como um "choque inflacionário temporário impulsionado pela energia" que deve desacelerar o crescimento, mas, no cenário base, não seria suficiente para causar uma recessão . Contudo, o risco de estagflação – a combinação perversa de inflação alta com economia estagnada – tornou-se um fantasma cada vez mais real nas análises de mercado
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Até poucos meses atrás, o Banco Central Europeu (BCE) estava em um ciclo de cortes de juros para estimular a economia. A guerra no Irã mudou tudo. Em 19 de março, o BCE manteve sua taxa de depósito em 2,00% e revisou para cima suas projeções de inflação para 2026 . O discurso de "juros estáveis" rapidamente deu lugar a apostas em novas altas.
Uma pesquisa da Bloomberg com economistas em maio já aponta para dois aumentos de 0,25 ponto percentual, esperados para junho e setembro . As expectativas do mercado financeiro, medidas por contratos de swap, mostram cerca de 70% de probabilidade de duas altas no ano
, enquanto a plataforma Polymarket indica um consenso de 89% entre traders de que ao menos um aumento ocorrerá
. Até mesmo as projeções dos especialistas consultados pelo próprio BCE, no seu Boletim de Projeções Profissionais do segundo trimestre, foram revisadas "acentuadamente para cima"
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Essa guinada na política monetária é um veneno para as bolsas. Juros mais altos encarecem o crédito, reduzem o consumo e o investimento, e tornam os lucros futuros das empresas menos valiosos nos modelos de avaliação de ações, criando um forte vento contrário para os índices acionários.
Se o STOXX 600 ainda não caiu mais, a razão tem nome e sobrenome: inteligência artificial (IA). O rali das ações europeias está incrivelmente concentrado em um punhado de empresas ligadas ao tema. Segundo pesquisa da TS Lombard, dois grupos de ações relacionados à IA foram responsáveis por mais de dois terços do desempenho positivo das ações europeias em um período recente de um mês e meio .
Essa cesta inclui gigantes da cadeia de semicondutores, como a holandesa ASML, e outras empresas de tecnologia. O desempenho desses papéis chega a rivalizar com o da Nasdaq, a bolsa de tecnologia americana . O problema é que, quando uma alta depende tão fortemente de tão poucas empresas, o mercado fica frágil. Qualquer sinal de que o entusiasmo por IA está diminuindo – seja por resultados corporativos mais fracos, seja por uma simples realização de lucros – pode derrubar o índice como um todo, já que os outros setores não têm força para sustentá-lo
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O boletim informativo do próprio STOXX já havia notado em fevereiro uma rotação para fora do setor de tecnologia nos EUA, com fluxos migrando para setores europeus de valor, mais tradicionais e com avaliações mais baixas . Isso mostra como a confiança no tema pode oscilar rapidamente.
Em resumo, o STOXX 600 enfrenta uma tempestade perfeita. O choque estagflacionário causado pela guerra no Irã e a consequente reversão na política de juros do BCE criam um cenário macroeconômico desafiador para as empresas europeias. Ao mesmo tempo, a extrema dependência do mercado em um grupo restrito de ações de inteligência artificial deixa o índice vulnerável a uma correção brusca caso a euforia tecnológica perca fôlego. A previsão de um ganho quase nulo até o fim do ano reflete essa encruzilhada de riscos.