Analistas da DTN observaram que "a ameaça mais significativa desta onda de calor é para a produtividade do trigo durante o estágio de enchimento de grãos" . A concentração do calor recorde no oeste da França, lar das zonas de trigo mole mais produtivas do país, eleva consideravelmente os riscos. Se a chuva não retornar no início de junho — um período de intenso escrutínio do mercado —, o dano à produtividade pode ser severo e a capacidade de recuperação da safra poderá ser perdida.
A onda de calor agrava um cenário que já era mais pessimista para a safra europeia de trigo em 2026. Muito antes do pico de temperatura do final de maio, as projeções oficiais já vinham sendo reduzidas.
MARS (Serviço de Monitoramento de Culturas da UE): Em suas primeiras projeções para 2026, publicadas em março, o MARS previu que a produtividade média de trigo mole da UE seria de 5,98 toneladas por hectare (t/ha), uma queda de 5% em relação a 2025 . No boletim de 19 de maio — o último relatório emitido antes da onda de calor —, a expectativa de produtividade do trigo mole foi reduzida para 6,01 t/ha, abaixo das 6,05 t/ha do mês anterior, com o MARS citando condições de seca persistente no oeste da França e na Europa central
. O próximo boletim do MARS, em 22 de junho, será a primeira avaliação oficial a captar o impacto total da onda de calor.
Conselho Internacional de Grãos (IGC): Em fevereiro de 2026, o IGC divulgou uma perspectiva preliminar para a temporada 2026/27 que já apontava um balanço de oferta e demanda global de trigo "um pouco mais apertado", impulsionado por expectativas de safras menores e pelo crescimento contínuo do consumo . Anteriormente, o IGC havia estimado a produção global de trigo de 2025/26 em um recorde de 842 milhões de toneladas métricas
, tornando qualquer queda anual particularmente significativa para o psicológico do mercado.
FAO e Outras Instituições: A previsão da FAO de 8 de maio reduziu sua projeção de produção global de trigo para 817 milhões de toneladas, cerca de 2% abaixo do ano anterior, observando que em grande parte da UE, "a seca contínua reduziu as perspectivas de produtividade" . A estimativa da COCERAL de março de 2026 apontou uma produção total de grãos da UE-27+Reino Unido de 298,8 milhões de toneladas, bem abaixo das 310,5 milhões de toneladas colhidas em 2025
. Enquanto isso, o relatório de abril do FAS/USDA projetou a produção de grãos da UE para 2026/27 em cerca de 277 milhões de toneladas, uma queda acentuada em relação aos 288,8 milhões de toneladas de 2025/26
.
Todas essas previsões foram elaboradas antes da cúpula de calor do final de maio. Com os recordes de temperatura agora quebrados, revisões adicionais para baixo são amplamente esperadas.
Além da ameaça climática imediata, vários fatores interligados estão ampliando a volatilidade nos mercados globais de trigo. Um euro mais fraco está tornando o trigo cotado na moeda europeia mais competitivo internacionalmente, o que pode dar suporte aos preços na Euronext, ao mesmo tempo que complica as perspectivas de exportação. A incerteza sobre as perspectivas comerciais entre EUA e China — variando de possíveis escaladas tarifárias à chance de novos acordos — pode mudar de forma imprevisível os fluxos globais de comércio de grãos .
Nos Estados Unidos, os relatórios de progresso de safra do USDA documentaram uma piora nas condições do trigo de inverno vermelho duro, particularmente no Kansas e nas planícies do sul, apertando a oferta global de trigo de alta proteína. Essa deterioração adiciona outro ponto de pressão num momento em que a safra europeia está sob estresse agudo.
A pesquisa científica reforça o que os operadores estão observando no campo. Um estudo de janeiro de 2026 publicado na Nature/PMC concluiu que o calor extremo durante a floração já ameaça a produtividade global do trigo e que modelagens sugerem um declínio de aproximadamente 6% na produtividade para cada grau Celsius de aquecimento durante os estágios reprodutivos sensíveis . Aplicado a uma anomalia de 10–15°C, esse parâmetro oferece aos operadores uma estrutura quantitativa para estimar o dano potencial.
Agora, com as previsões do tempo para o início de junho em mãos, o mercado estará atento a qualquer sinal de chuva sobre a França. Se um sistema climático significativo chegar na próxima semana ou nos próximos dez dias, alguns efeitos do estresse térmico poderão ser parcialmente mitigados. Sem isso, as reduções de produtividade causadas por esta onda de calor se acumularão diretamente sobre uma base já reduzida, aumentando a perspectiva de novos cortes acentuados nas estimativas de produção da UE e de uma força prolongada nos preços do trigo europeu .