A China está atrasando a aprovação final de importação de quase 20 jatos da Airbus, uma retaliação direta pela lentidão da EASA em certificar o COMAC C919. O impasse gira em torno da exigência de 4.200 horas de testes nos complexos sistemas aviônicos do C919 — bem acima do padrão de 3.000 horas para Boeing e Airbus.

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Na escalada da disputa comercial entre Europa e China, a aviação virou um ponto de pressão estratégico. Há vários meses, a Administração de Aviação Civil da China (CAAC, na sigla em inglês) está segurando as aprovações finais de importação que permitem que jatos da Airbus entrem em serviço nas companhias aéreas chinesas . A tática é uma retaliação cirúrgica ao que Pequim enxerga como uma demora injustificada dos reguladores europeus para certificar o C919, o primeiro jato comercial de corredor único fabricado pela estatal chinesa COMAC.
Os atrasos não configuram um banimento formal, mas uma manobra administrativa deliberada que deixa aeronaves prontas paradas num limbo regulatório, sem qualquer base legal pública . O baque imediato está nos números de entrega da Airbus: a empresa repassou apenas 114 aeronaves comerciais no primeiro trimestre de 2026, uma queda de 16% em relação ao ano anterior, e citou explicitamente um “atraso administrativo que impacta quase 20 aeronaves para a China”
. Janeiro de 2026 foi o mês mais fraco para entregas nesta década, com apenas 19 aviões despachados
.
A causa-raiz do travamento é um desacordo cada vez mais profundo sobre como levar o C919 aos mercados globais. A Agência Europeia para a Segurança da Aviação (EASA) deixou claro que o caminho do jato para a validação europeia será longo e exigente.
O diretor-executivo da EASA, Florian Guillermet, declarou em maio de 2025 que o C919 “não pode ser certificado em 2025” e projetou um prazo de três a seis anos . Já em agosto de 2025, os reguladores europeus sinalizaram informalmente que a certificação formal é improvável antes de 2028 e pode escorregar até 2031
. O principal gargalo está nos aviônicos (sistemas eletrônicos de voo): a EASA planeja 4.200 horas de testes, bem acima das cerca de 3.000 horas típicas para os jatos de corredor único da Airbus ou Boeing, devido à complexidade de sistemas que misturam componentes chineses e ocidentais
.
Para a COMAC, que mirou publicamente a certificação em 2025, esse processo alongado é uma barreira gigantesca para desafiar o duopólio Airbus-Boeing fora da China e de alguns mercados do Sudeste Asiático . A China agora usa seu controle regulatório sobre um dos maiores mercados de aviação do mundo — a Airbus está de olho num potencial pedido de 500 jatos de companhias aéreas chinesas, que segue travado — como uma moeda de barganha para acelerar esse cronograma
.
A briga pela certificação do avião acontece dentro de uma tensão comercial entre UE e China que é muito maior. O déficit comercial de bens da UE com a China atingiu € 359,9 bilhões em 2025, uma alta de 2,7% em relação ao ano anterior . Esse número sustenta uma série de medidas agressivas de Bruxelas:
Pequim respondeu com suas próprias escaladas. Pela primeira vez, invocou regulamentos de jurisdição anti-extraterritorial para bloquear que empresas chinesas cooperassem com investigações da UE, e impôs controles de exportação sobre terras-raras, um insumo crítico para as cadeias de tecnologia europeias .
Mesmo assim, a relação não é um rompimento total. O comércio bilateral cresceu cerca de 5% em 2025, mesmo com o desacoplamento estrutural acelerando em várias frentes . Os canais diplomáticos continuam abertos, mas o freio nas entregas da Airbus sinaliza que a China está disposta a usar ferramentas econômicas específicas e reversíveis para ganhar vantagem num conflito em que sente que suas ambições industriais estão sendo contidas
.
A disputa pelas entregas de aviões, portanto, é melhor compreendida como uma peça cuidadosamente calibrada de um jogo estratégico maior — no qual aviões parados numa fila regulatória são uma arma comercial tão potente quanto uma tarifa.
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A China está atrasando a aprovação final de importação de quase 20 jatos da Airbus, uma retaliação direta pela lentidão da EASA em certificar o COMAC C919.
A China está atrasando a aprovação final de importação de quase 20 jatos da Airbus, uma retaliação direta pela lentidão da EASA em certificar o COMAC C919. O impasse gira em torno da exigência de 4.200 horas de testes nos complexos sistemas aviônicos do C919 — bem acima do padrão de 3.000 horas para Boeing e Airbus.
Esse freio nas entregas é uma manobra tática dentro de uma guerra comercial que já acumula um déficit recorde de € 359,9 bilhões da UE com a China, tarifas sobre carros elétricos chineses e controles de exportação de...