O papel de €1,2 bilhão, última peça de um programa de dívida estruturada, foi quitado com recursos do próprio caixa da empresa. A Ryanair já vinha pagando títulos com vencimento programado ao longo do ano — incluindo um de €850 milhões em setembro de 2025 — e havia sinalizado a quitação final havia meses, nos balanços trimestrais .
O que torna esse momento especialmente relevante é o que ele destrava. Sem a obrigação de honrar pagamentos de dívida, toda a frota de 620 aeronaves — que não estão atreladas a financiamentos — se torna uma vantagem competitiva e tanto. A diretoria argumenta que essa estrutura amplia a diferença de custos frente a concorrentes mais endividados . No encerramento do ano fiscal, a frota total era de 647 aeronaves, já com todos os 210 jatos B737-8200, os chamados “Gamechangers”, de baixo consumo de combustível .
A Ryanair havia divulgado seus resultados do ano fiscal encerrado em 31 de março de 2026 no dia 18 de maio. Os principais números do exercício :
As receitas acessórias — despacho de bagagem, escolha de assento e outros adicionais — subiram 6%, alcançando €4,99 bilhões, ou cerca de €24 por passageiro . Os custos operacionais tiveram um aumento contido, de 6%, o que representou apenas 1% por passageiro transportado.
Tanto a S&P quanto a Fitch mantêm a nota de crédito da Ryanair em BBB+, com perspectiva estável, patamar que a empresa sustenta ao longo de vários trimestres . As agências de classificação de risco citam como principais pilares a frota desonerada, a forte geração de caixa e uma linha de crédito rotativa de €1,1 bilhão, ainda não utilizada, com vencimento em 2030 .
Livre das parcelas de títulos, a administração agora acelera o crescimento. A meta de curto prazo é atingir 216 milhões de passageiros no ano fiscal de 2027, cerca de 4% de expansão sobre 2026 .
A ambição de mais longo prazo é ainda mais agressiva. O plano é transportar 300 milhões de passageiros por ano até 2034, objetivo que o CEO Michael O’Leary atrela diretamente à chegada do futuro Boeing 737 MAX-10 . Em maio de 2023, a empresa fechou um pedido de até 300 dessas aeronaves — 150 encomendas firmes mais 150 opções de compra .
Para estar pronta quando os novos jatos chegarem, a Ryanair já acelerou a contratação de pilotos e reserva um orçamento anual de aproximadamente €25 milhões só para treinamentos .
Embora a retomada da produção na Boeing tenha sido instável — atrasos anteriores nos Gamechangers forçaram a empresa a reduzir metas de tráfego no início de 2025 —, a aérea afirma agora que todas as 210 unidades Gamechanger foram entregues e que o cronograma do MAX-10 permanece de pé .
Estar livre de dívidas não significa que a Ryanair deixará de recorrer a empréstimos. A administração preserva uma linha de crédito rotativa de €1,1 bilhão e já indicou que pode utilizar financiamentos em condições atrativas para futuros pedidos de aeronaves ou para recompras oportunas de ações . Mas, pela primeira vez desde que se tornou uma empresa de capital aberto, a companhia não tem nenhum vencimento obrigatório de bônus no horizonte.
O feito coloca a Ryanair num grupo restrito de aéreas que detêm a propriedade plena da maior parte de sua frota — uma estrutura que dá proteção em momentos de crise e liberdade total para decisões de capacidade. À medida que o grupo se encaminha para o verão europeu com o balanço zerado e 620 aeronaves desimpedidas, o foco agora se volta inteiramente para a entrada em operação do MAX-10 e para a jornada rumo aos 300 milhões de passageiros.