Imediatamente, os dois foram transferidos para o Hospital Sacco, em Milão, centro de referência para doenças infectocontagiosas na Itália, onde ficaram em isolamento . O Ministério da Saúde conduziu os testes diagnósticos com urgência, e o resultado trouxe alívio para as autoridades e para a população: ambos testaram negativo para o vírus Ebola .
Investigações posteriores indicaram que os sintomas foram causados por uma infecção bacteriana por Shigella, uma bactéria comum, mas que pode provocar quadros gastrointestinais severos, não pelo vírus hemorrágico . Em um comunicado oficial, a pasta da saúde italiana fez questão de frisar que o risco de Ebola no país “permanece muito baixo” . Nenhum caso da doença foi confirmado em território italiano neste episódio.
O protocolo, no entanto, não foi um exagero. A Itália já havia reforçado sua vigilância sanitária dias antes, especialmente para passageiros e pessoal de organizações humanitárias que retornavam da RDC e de Uganda, justamente pelo contexto de surto ativo com uma cepa para a qual não há vacina disponível .
Se na Itália o medo durou poucas horas, na República Democrática do Congo (RDC) e em Uganda, a realidade é de uma crise humanitária que se expande perigosamente. O atual surto é impulsionado por uma cepa rara e particularmente preocupante do vírus: o Bundibugyo (nome científico Orthoebolavirus bundibugyoense) .
Identificado pela primeira vez em 2007, no distrito de Bundibugyo, em Uganda, esse vírus é uma espécie distinta do gênero Ebolavirus. Ele não é o mesmo que o Zaire ebolavirus, o tipo mais comum e letal, responsável pela grande epidemia na África Ocidental entre 2014 e 2016.
A principal diferença e o maior desafio atual estão no arsenal médico: não existem vacinas licenciadas nem tratamentos específicos comprovados contra o Bundibugyo . Vacinas como a Ervebo, que tiveram sucesso no controle de surtos anteriores causados pela cepa Zaire, não oferecem proteção cruzada para o Bundibugyo . Isso deixa as equipes de saúde dependendo exclusivamente de cuidados de suporte, isolamento de casos, rastreamento de contatos e medidas rigorosas de controle de infecção .
O CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA) emitiu um alerta da sua Rede de Alerta em Saúde no dia 19 de maio de 2026, classificando a situação como um surto transfronteiriço que afeta tanto a RDC quanto Uganda .
Com base nos dados mais recentes divulgados até 24 de maio de 2026 pelos ministérios da saúde dos países afetados, a dimensão do surto já era alarmante :
É importante contextualizar que, no início de 2025, Uganda já havia enfrentado outro surto de Ebola, este causado pelo vírus Sudão. Declarado em 30 de janeiro de 2025 e encerrado em 26 de abril do mesmo ano, aquele episódio resultou em 14 casos . O cenário atual, portanto, representa uma nova e distinta emergência, correndo em paralelo e com uma sobrecarga adicional aos sistemas de saúde da região.
A combinação de uma cepa sem ferramentas preventivas ou terapêuticas, a detecção já em estágio avançado de propagação (quando o surto foi confirmado em 15 de maio, estimava-se 246 casos; em poucos dias, o número mais que dobrou) e a facilidade de circulação em uma região de fronteiras porosas acende o alerta global .
A resposta internacional já está em curso. O Comitê Internacional de Resgate (IRC, na sigla em inglês) lançou uma operação de emergência na região, destacando justamente a fragilidade do enfrentamento a uma cepa “órfã” de vacinas . A vigilância reforçada em países como a Itália, com triagem de viajantes e protocolos de isolamento imediato, é uma amostra de como o mundo tenta se antecipar para evitar que surtos localizados se transformem em emergências globais.