O sistema foi projetado para ser sem permissão (permissionless), mas seu mecanismo de segurança concentra um poder imenso. É assim que um mercado sai de uma aposta para uma decisão final:
O design do oráculo otimista presume que "disputadores" honestos atuarão como um freio contra propostas ruins. Mas o recurso final — o voto DVM — é onde reside o verdadeiro poder, e ele é uma plutocracia pura .
Uma análise de registros de blockchain e votações passadas revelou que a "multidão" que decide os resultados mais contestados da Polymarket é, na verdade, um grupo minúsculo. Entre os mais de 6.400 endereços participantes, nove carteiras "baleia" controlavam cerca de metade do poder de voto total e ficaram do lado do resultado vencedor em quase todas as disputas .
Algumas carteiras têm tanto poder que seus votos podem decidir casos sozinhos. Em múltiplos incidentes documentados, um único votante ou grupo coordenado, mobilizando milhões de tokens UMA — às vezes representando 25% ou mais do poder de voto total em uma rodada —, conseguiu virar o resultado de um mercado momentos antes da finalização .
O anonimato dessas carteiras agrava o problema. Diferentemente da Kalshi, uma plataforma concorrente que resolve disputas internamente com linhas claras de responsabilidade, a Polymarket terceiriza a autoridade final para um júri não regulamentado e pseudônimo . O acordo de usuário da Polymarket afirma explicitamente que a plataforma "não assume qualquer responsabilidade pela resolução de disputas relacionadas a contratos de negociação" .
O que torna essa estrutura genuinamente perigosa é o desalinhamento de incentivos. Frequentemente, os votantes possuem posições nos próprios mercados que estão julgando. Mais de 60% dos votantes ativos da UMA estão ligados a contas de negociação da Polymarket . Um votante que possui uma aposta direcional, ou uma posição nos dois lados de um mercado, pode votar para direcionar o resultado a seu próprio favor financeiro — atuando efetivamente como juiz e parte financeiramente interessada.
As consequências foram concretas e caras. Resoluções controversas da UMA afetaram mais de US$ 30 milhões em valor de mercado em 2025, em mercados como o acordo de mineração da Ucrânia, a auditoria do ouro de Fort Knox e o mercado de desclassificação de OVNIs . A disputa do cessar-fogo no Irã trouxe um escrutínio ainda maior, não só pelo seu volume de mais de US$ 280 milhões, mas por padrões de negociação suspeitos que desencadearam investigações no congresso americano .
A consciência do problema não é nova. A UMA introduziu uma atualização "MOOV2" que restringiu a elegibilidade de voto para apenas 37 endereços, uma tentativa de melhorar a responsabilização. Mas a atualização falhou em resolver o problema central da concentração — ela simplesmente formalizou uma oligarquia um pouco maior . A própria reformulação mais ampla do processo de votação pela Polymarket foi adiada .
A questão mais profunda é estrutural. O oráculo otimista presume que os "disputadores" atuarão como um freio protetor, mas quando as baleias controlam o voto DVM final, esse freio se torna funcionalmente inútil . Como uma análise resumiu: "descentralização no nome não significa descentralização na prática" . Até que o mecanismo de votação seja fundamentalmente rearquitetado — ou até que a Polymarket internalize as funções de oráculo, o que está explorando atualmente por meio de um token POLY proposto —, a maior plataforma de apostas do mundo continuará dependendo de um sistema de arbitragem da verdade controlado por um punhado de carteiras anônimas .