Só que, nessa mesma semana, diversos relatos independentes começaram a expor exatamente o tipo de falha de segurança do tipo "remendo" que o executivo tanto criticava — só que no próprio quintal do Google, na plataforma da API Gemini. O contraste entre o discurso oficial e a realidade de quem desenvolve mostra um abismo preocupante entre a retórica e a operação.
Desenvolvedores que usam a API Gemini começaram a relatar uma onda de chaves de API comprometidas gerando cobranças enormes e não autorizadas em questão de minutos. Nos fóruns oficiais do Google, um usuário documentou R$ 861.344 (~US$ 10.300) em valores contestados, originados de uma chave de API Android provisionada automaticamente pelo Firebase — uma chave que jamais deveria acessar a Gemini, mas que foi habilitada silenciosamente quando a API de Linguagem Generativa foi ativada no projeto . Outro desenvolvedor relatou uma conta de US$ 4.368 vinda de uma chave do lado do cliente que havia vazado originalmente em 2022 .
Em um dos casos mais comentados, a conta de um cliente do Google Cloud sofreu um upgrade automático de capacidade que disparou US$ 17.000 em cobranças em minutos . O veículo The Register detalhou a situação de vários clientes cujas chaves de API vazadas geraram contas de cinco dígitos em cargas de trabalho de inferência de IA, e observou que o Google reembolsou as vítimas somente após a publicação fazer questionamentos diretos . Um desenvolvedor disse ao The Register que foi pego de surpresa pela política do Google de aumentar automaticamente os limites da conta sem consentimento explícito .
O problema foi bem além de meia dúzia de anedotas. Os relatos descrevem contas que antes geravam pequenas cobranças mensais e, de repente, passaram a ter picos instantâneos ligados a modelos de IA de alto custo. Sistemas automatizados elevavam os limites de gasto para até US$ 100.000, permitindo que o uso não autorizado continuasse mesmo depois de os alertas de orçamento terem sido disparados .
Se uma chave de API é comprometida, a resposta padrão de segurança é revogá-la imediatamente. Mas uma pesquisa publicada pela empresa de segurança Aikido em maio de 2026 mostrou que, mesmo depois de o desenvolvedor deletar uma chave de API do Google comprometida, os atacantes conseguem continuar usando-a por até 23 minutos . Os pesquisadores confirmaram que a autenticação seguia funcionando durante toda essa janela após a exclusão, com uma mediana de aproximadamente 16 minutos e um máximo observado de 23 minutos .
Essa falha acontece porque a exclusão da chave não se reflete instantaneamente em toda a infraestrutura do Google, mas sim em etapas . Para um atacante automatizado que drena chamadas de API pagas, 23 minutos são mais do que suficientes para causar um estrago financeiro considerável. A descoberta contradiz diretamente o princípio de que controles de segurança devem agir de forma imediata quando acionados — algo básico para qualquer plataforma que processa eventos de cobrança.
Talvez a questão mais estrutural seja o desenho dos planos de cobrança da API Gemini. O sistema opera em "tiers" de uso que escalam automaticamente com base no histórico de pagamento: o Tier 1 tem um teto de US$ 250 por mês; o Tier 2, US$ 2.000; e o Tier 3 varia de US$ 20.000 a mais de US$ 100.000 . Os usuários podem ser promovidos de tier automaticamente conforme o gasto acumulado e a idade da conta aumentam, com os critérios ficando ainda mais brandos em 2026 .
A parte mais grave é que, segundo o The Register, mesmo depois de reembolsar várias vítimas de alto perfil, o Google afirmou que manteria a política de expandir automaticamente o teto de gastos dos usuários . Ou seja, um usuário que criou a conta esperando um limite de US$ 250 pode se ver exposto a cobranças uma ordem de magnitude maiores, sem consentimento explícito ou aviso adequado.
O Google introduziu o "Project Spend Caps" em março de 2026, uma resposta direta a toda essa repercussão negativa. O recurso permite que desenvolvedores definam limites mensais em dólar para os gastos com a API Gemini por projeto no AI Studio . No entanto, a solução veio com uma ressalva importante: um atraso de aproximadamente 10 minutos para que o limite entre em vigor. Durante essa janela, os usuários continuam financeiramente responsáveis por qualquer cobrança extra . Para aplicações que processam milhares de chamadas de API por minuto, 10 minutos de cobrança sem teto representam uma exposição financeira relevante.
A desconexão entre as orientações de De Souza e o desempenho da própria plataforma do Google ilustra um desafio mais amplo da IA corporativa. O conselho do executivo — incorporar segurança e governança desde o início, evitar a shadow AI, exigir auditabilidade — é sensato e necessário. Mas, como notou o TechCrunch ao cobrir justamente essa contradição, "todo mundo está navegando a segurança da IA em tempo real — até mesmo o Google" .
Para as empresas que estão construindo sobre plataformas de IA, os incidentes da API Gemini oferecem várias lições práticas. Primeiro, o gerenciamento de chaves de API e a higiene de credenciais continuam sendo fundamentais: chaves embutidas em código do lado do cliente, provisionadas automaticamente por serviços como Firebase sem as devidas restrições, ou mantidas sem limites em projetos, serão descobertas e exploradas. Segundo, a governança de cobrança precisa ser tratada como uma função de segurança. Um teto de gastos com atraso de 10 minutos, ou upgrades automáticos que ignoram a intenção do usuário, não representa um controle real. Terceiro, auditabilidade exige mais do que registrar logs — exige que ações de segurança, como a revogação de credenciais, entrem em vigor de forma instantânea e universal em toda a infraestrutura do provedor.
O alerta de De Souza de que o tempo médio entre uma violação inicial e a próxima etapa de um ataque caiu para 22 segundos reforça a urgência do problema . Quando a superfície de ataque se expande para incluir modelos, pipelines de dados e agentes, a margem para erro diminui drasticamente. Uma janela de 23 minutos para revogar uma chave ou um upgrade automático de tier que é ativado durante uma invasão ativa não é um mero inconveniente — é uma falha de segurança que permite, diretamente, o dano financeiro.