A Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o surto como uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional em 16 de maio de 2026, apenas um dia após o anúncio oficial do governo congolês . Até 25 de maio, o surto já havia chegado a 1.018 casos suspeitos e confirmados, com pelo menos 234 mortes . Mas o número real é provavelmente muito maior, porque os combates e a insegurança estão impedindo que as equipes de vigilância rastreiem o vírus em muitas áreas .
Os ataques não são aleatórios. Eles são fruto de condições específicas e explosivas que transformaram os profissionais de saúde e suas instalações em alvos, em vez de fontes de ajuda.
Em muitas comunidades, o Ebola é visto como uma invenção de forasteiros — uma conspiração para prejudicar ou controlar a população. Boatos de que corpos estão sendo roubados ou maltratados pelas autoridades de saúde circulam amplamente, alimentando a suspeita. Quando a resposta exige a entrega de entes queridos falecidos, esses boatos se transformam em fúria. Durante o ataque de 24 de maio, os agressores exigiram explicitamente a devolução dos corpos dos parentes e, dias antes, no hospital de Rwampara, manifestantes atearam fogo em tendas de isolamento após serem impedidos de ver o corpo de um jovem que havia morrido . A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) alertou que a desconfiança da comunidade fez com que a resposta "perdesse o controle da situação" repetidas vezes .
Os protocolos de Ebola exigem sepultamentos seguros e medicalizados para evitar que o vírus se espalhe pelo contato com cadáveres infectados. Mas os rituais fúnebres tradicionais carregam um enorme significado cultural e espiritual. Quando as famílias são privadas do direito de lavar, vestir ou simplesmente tocar seus mortos, o luto pode rapidamente se transformar em revolta. Profissionais de saúde em campo descrevem uma tensão implacável entre o controle de infecção e o respeito cultural, uma tensão que já explodiu em incêndios criminosos e invasões armadas .
A província de Ituri, epicentro do surto, é também o epicentro de um conflito étnico de décadas, agora sobreposto às tensões mais amplas entre a RDC e Ruanda, envolvendo o grupo rebelde M23 e inúmeras outras milícias. Os combates já deslocaram mais de 100 mil pessoas nos últimos meses, restringindo o movimento das equipes médicas, cortando rotas de vigilância e tornando impossível realizar sepultamentos seguros em muitas áreas . O conflito também faz com que os próprios hospitais sejam vistos como território contestado. Profissionais de saúde foram forçados a evacuar pacientes sob tiros, e a insegurança constante impede o rastreamento de contatos, essencial para interromper as cadeias de transmissão .
Um sistema de saúde já fragilizado está agora ruindo sob a escassez de suprimentos, agravada por cortes no financiamento internacional. A capacidade do governo de fornecer segurança ou serviços básicos é severamente limitada, o que corrói ainda mais qualquer confiança restante da comunidade na resposta. Quando os centros de tratamento ficam sem suprimentos básicos e não conseguem proteger sua própria equipe, eles se tornam ainda mais vulneráveis — tanto ao vírus quanto à raiva das comunidades que deveriam atender .
Os surtos anteriores de Ebola na RDC foram dominados pela espécie Zaire ebolavirus. Este surto é causado pelo mais raro vírus Bundibugyo (BDBV) , uma espécie identificada pela primeira vez em Uganda em 2007. O sequenciamento feito no Instituto Nacional de Pesquisa Biomédica em Kinshasa confirmou a cepa em 15 de maio de 2026 .
Historicamente, o vírus Bundibugyo matou uma proporção menor de infectados — cerca de 25% a 50%, em comparação com até 90% do Zaire ebolavirus. Mas este surto tem se mostrado excepcionalmente grave e de rápida disseminação, surpreendendo até mesmo os profissionais mais experientes . Um detalhe crucial ressalta seu perigo: enquanto o Zaire ebolavirus tem duas vacinas licenciadas (ERVEBO) e tratamentos com anticorpos monoclonais aprovados (Inmazeb, Ebanga), não existe nenhuma vacina licenciada ou tratamento antiviral específico para o vírus Bundibugyo . A OMS afirmou que qualquer vacina em potencial está a meses de distância de ser distribuída . Isso deixa os profissionais de saúde apenas com cuidados de suporte, isolamento e medidas de controle de infecção como ferramentas — um retrocesso gritante em relação aos avanços médicos que deram aos socorristas uma vantagem decisiva nos surtos recentes da cepa Zaire.
O padrão é sombrio e familiar. O último grande surto de Ebola no leste da RDC, entre 2018 e 2020, foi repetidamente atrasado por ataques a centros de tratamento e profissionais de saúde. Um estudo de 2019 descobriu que eventos de conflito podiam reverter uma trajetória epidêmica que estava em declínio, ao interromper o isolamento de casos e a vacinação . Hoje, sem vacina, com uma situação de segurança frágil e uma comunidade que vê cada vez mais a resposta sanitária como uma força hostil, os ingredientes para uma catástrofe muito maior estão postos.
A vigilância continua fragmentada, muitos casos provavelmente não são notificados e cada ataque que força os pacientes a fugirem — como aconteceu em Mongbwalu — cria novas oportunidades para o vírus se espalhar sem ser detectado . A OMS alertou que o risco de uma escalada ainda maior é “muito alto” . O vírus Bundibugyo está encontrando terreno fértil exatamente nas condições de que precisa: medo, deslocamento populacional e uma resposta fraturada.