Na prática, o gargalo da infraestrutura de IA não é apenas a disponibilidade de GPUs. Essas GPUs precisam de enormes quantidades de memória para funcionar com eficiência.
Empresas de tecnologia estão construindo clusters gigantescos de IA com milhões de aceleradores. Cada um deles requer grandes quantidades de DRAM e memória especializada, pressionando toda a cadeia de suprimentos.
A própria Micron reconhece o tamanho do desequilíbrio: a empresa diz que atualmente consegue atender apenas cerca de 50% a dois terços da demanda de alguns clientes importantes.
Um dos maiores motores dessa escassez é a HBM (High‑Bandwidth Memory) — a memória empilhada de altíssima velocidade usada em GPUs de IA para treinamento e inferência.
Produzir HBM é muito mais complexo do que fabricar DRAM convencional. Os chips exigem:
Diante disso, fabricantes estão priorizando chips voltados para IA, que têm maior valor agregado. A consequência é menos capacidade disponível para memórias usadas em PCs, smartphones e outros dispositivos.
Além disso, boa parte da produção futura de HBM já foi reservada com anos de antecedência por grandes clientes de IA.
Mesmo com investimentos bilionários, aumentar a produção de semicondutores leva tempo. Construir uma fábrica moderna de memória envolve várias etapas complexas:
Por causa desse processo, fábricas que começam a ser construídas hoje podem levar anos até produzir volumes capazes de alterar o mercado global. Analistas ligados à indústria estimam que esse impacto significativo não deve acontecer antes de 2027–2028.
Para lidar com a demanda futura, a Micron anunciou um dos maiores investimentos da história da indústria de memória.
A empresa pretende investir cerca de US$ 200 bilhões em fabricação e pesquisa, incluindo aproximadamente US$ 150 bilhões para produção doméstica de memória e US$ 50 bilhões para P&D.
A expansão inclui projetos em três estados americanos:
O projeto de Nova York, sozinho, pode se tornar o maior complexo de fabricação de semicondutores dos Estados Unidos.
Mesmo assim, os efeitos não serão imediatos. A primeira nova fábrica da Micron em Idaho deve iniciar operações por volta de 2027, e só depois disso a produção aumentará gradualmente.
A visão da Micron não é isolada. Outros gigantes do setor também alertaram para um período prolongado de oferta limitada.
Samsung e SK Hynix já indicaram que a demanda por memória para IA está crescendo mais rápido do que a capacidade de produção, com escassez prevista pelo menos até 2027 ou além.
Alguns líderes da indústria chegam a sugerir que o desequilíbrio pode durar ainda mais tempo, à medida que data centers de IA continuam sendo construídos em ritmo acelerado no mundo todo.
A mudança do setor para memórias voltadas à IA já está afetando outras áreas da indústria tecnológica.
Como fabricantes priorizam chips de maior margem para data centers, empresas que produzem smartphones, computadores e eletrônicos de consumo enfrentam oferta mais limitada e custos maiores de componentes.
O resultado pode incluir:
Para a liderança da Micron, a atual escassez não é apenas mais um ciclo normal do mercado de semicondutores.
A explosão da inteligência artificial mudou profundamente o perfil de demanda por memória. Como novas fábricas levam anos para entrar em operação e sistemas de IA precisam de muito mais DRAM e HBM, o setor pode permanecer com oferta limitada até o final da década.