Um dos pontos mais sensíveis é o custo de implementação para o setor financeiro.
Uma análise do próprio BCE estima que os bancos da zona do euro poderiam ter que investir entre €4 bilhões e €5,8 bilhões para adaptar sistemas, integrar infraestrutura e oferecer serviços ligados ao euro digital.
O valor final ainda depende de decisões técnicas e do desenho final do sistema, mas o número já alimenta a resistência de instituições financeiras, que questionam se o retorno compensará o investimento.
Para muitos bancos, o projeto pode significar gastar bilhões para apoiar uma infraestrutura que, na prática, pode competir com seus próprios serviços de pagamento.
Outro receio central é a chamada desintermediação bancária.
Se cidadãos puderem manter dinheiro em carteiras digitais ligadas ao BCE, parte dos depósitos atualmente guardados em bancos comerciais poderia migrar para esse novo formato — especialmente em períodos de instabilidade financeira.
Isso preocupa porque os depósitos são uma das principais fontes de financiamento barato para os bancos. Uma fuga significativa poderia afetar sua capacidade de conceder crédito.
O BCE afirma que o objetivo não é substituir os bancos. A proposta mantém o chamado sistema de dois níveis, no qual instituições financeiras privadas continuam sendo intermediárias responsáveis por distribuir o euro digital e oferecer serviços aos clientes.
Enquanto o projeto institucional avança lentamente, soluções privadas europeias estão ganhando velocidade.
Iniciativas como a European Payments Initiative (EPI) e a aliança EuroPA, que inclui sistemas como Bizum (Espanha), Bancomat (Itália), MB WAY (Portugal) e Vipps MobilePay (países nórdicos), estão construindo uma rede interoperável de pagamentos digitais na Europa.
Esse ecossistema, que gira em torno da carteira digital Wero, já conecta cerca de 130 milhões de usuários em diversos países europeus.
Muitos bancos veem essas soluções privadas como uma alternativa mais atraente porque preservam o relacionamento com os clientes e mantêm dentro do setor bancário as receitas de pagamentos.
O projeto do BCE ainda está em fase preparatória. O banco central afirma que só poderá tomar a decisão final após aprovação da legislação europeia.
Se as regras forem adotadas em 2026, o plano prevê:
Esse ritmo relativamente lento aumenta a pressão política e econômica sobre o projeto, porque o mercado de pagamentos digitais continua evoluindo rapidamente.
No fundo, a disputa não é apenas técnica. Ela envolve o futuro da arquitetura financeira europeia.
Com o aumento dos pagamentos digitais, a expansão de stablecoins e a influência crescente de plataformas globais de tecnologia e fintechs, a pressão para encontrar uma solução europeia só tende a aumentar.
A questão agora é se essa solução virá principalmente do banco central ou do próprio setor bancário europeu — ou de alguma combinação entre os dois.
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