Após a invasão em larga escala da Ucrânia em 2022, Estados Unidos, União Europeia, Reino Unido e aliados implementaram pacotes extensivos de sanções e controles de exportação contra a economia russa.
Entre as restrições mais relevantes para o setor de tecnologia estão:
A União Europeia ampliou os controles sobre tecnologias sensíveis usadas em setores militares e industriais, com o objetivo de limitar o acesso russo a tecnologias críticas.
Nos Estados Unidos e em outros países, regras de exportação também exigem licenças especiais para vender semicondutores e outros equipamentos tecnológicos à Rússia — autorizações que geralmente são negadas.
Na prática, isso dificulta a compra legal de GPUs avançadas de empresas ocidentais como a Nvidia, que são fundamentais para treinar e operar grandes modelos de IA.
Com grande parte das cadeias de suprimento ocidentais fechadas, a China se tornou um dos poucos países capazes de fornecer hardware de IA em escala.
Autoridades russas vêm incentivando maior cooperação tecnológica com Pequim justamente para reduzir a dependência de sistemas ocidentais.
Durante uma visita à China, o CEO do Sberbank, German Gref, afirmou que o banco espera utilizar gradualmente microchips chineses para rodar o GigaChat, embora a transição ainda esteja em andamento.
Esse movimento interessa aos dois lados:
Mesmo assim, a relação não é totalmente equilibrada. A Rússia depende fortemente de fornecedores externos para poder computacional, enquanto a China ainda enfrenta limitações na produção de chips mais avançados.
O Sberbank não confirmou oficialmente qual processador pretende usar. Ainda assim, analistas e reportagens do setor apontam frequentemente para a família Ascend, da Huawei, como candidata provável.
Esses chips fazem parte da estratégia chinesa de criar uma pilha tecnológica completa de IA — do hardware ao software — independente de fornecedores ocidentais.
A produção está crescendo rapidamente. Estimativas indicam que a Huawei pode fabricar cerca de 600 mil unidades do acelerador Ascend 910C em 2026, enquanto a produção total da linha Ascend pode alcançar aproximadamente 1,6 milhão de dies no mesmo período.
Esses processadores foram projetados para tarefas típicas de centros de dados de IA, como treinamento e inferência de grandes modelos de linguagem.
Mesmo assim, existe um obstáculo: a demanda dentro da própria China é enorme. Gigantes de tecnologia como ByteDance e Alibaba também disputam esses chips, o que pode dificultar o acesso de compradores estrangeiros.
Embora os fabricantes chineses tenham avançado rapidamente, analistas apontam que os chips líderes do país ainda ficam atrás das GPUs mais avançadas do Ocidente.
Por exemplo:
Isso não significa que os chips chineses sejam inúteis para IA. Muitas organizações compensam essa diferença utilizando clusters maiores de GPUs ou técnicas de computação distribuída.
O custo, porém, pode aumentar: para alcançar desempenho semelhante, frequentemente é necessário usar mais hardware, mais energia e mais engenharia.
O GigaChat é tecnicamente sólido, especialmente para aplicações em russo.
O modelo utiliza uma arquitetura do tipo mixture‑of‑experts com cerca de 47 bilhões de parâmetros totais e aproximadamente 13 bilhões ativos, e apresentou bons resultados em benchmarks internos envolvendo matemática e programação.
Ainda assim, comparações independentes sugerem que os modelos russos ainda estão atrás da fronteira global.
Em algumas avaliações, sistemas líderes de empresas como OpenAI e Anthropic ocupam o topo dos rankings, enquanto modelos russos — incluindo o GigaChat 2 Max — aparecem significativamente mais abaixo nas classificações.
Análises públicas também indicam que o modelo fica atrás de vários sistemas ocidentais e chineses em plataformas de avaliação de LLMs.
Na prática, o principal ponto forte do GigaChat hoje é a localização: ele funciona bem para tarefas em língua russa e aplicações empresariais domésticas.
A estratégia do Sberbank é parte de uma tendência maior que está redesenhando a indústria global de IA.
Entre os fatores principais estão:
Ao mesmo tempo, a parceria também expõe limites. Os chips mais avançados da China ainda não igualam os líderes globais, e a produção disponível precisa atender primeiro à própria demanda doméstica.
A tentativa do Sberbank de rodar o GigaChat com chips chineses mostra como a geopolítica está remodelando o desenvolvimento de inteligência artificial.
As sanções ocidentais praticamente cortaram o acesso russo à cadeia de suprimento de semicondutores de ponta, empurrando o país para alternativas chinesas como os aceleradores Ascend da Huawei.
Esses chips permitem que a Rússia continue desenvolvendo IA — mas, pelo menos por enquanto, não substituem totalmente o desempenho e o ecossistema tecnológico das GPUs mais avançadas da Nvidia.