O problema é que as empresas divergem sobre autoridade de projeto, propriedade intelectual e divisão do trabalho industrial. O CEO da Dassault, Eric Trappier, chegou a afirmar que o projeto do caça poderia estar "morto" se não houver acordo com a Airbus.
Governos da França e da Alemanha tentaram mediar o conflito e chegaram a estabelecer prazos para evitar o colapso do NGF.
A disputa levanta uma questão central: o FCAS pode continuar existindo mesmo se o caça comum fracassar?
Apesar da atenção concentrada no NGF, o FCAS foi concebido desde o início como um “sistema de sistemas” — ou seja, um conjunto de plataformas e redes integradas operando juntas.
Os principais pilares incluem:
Esse conjunto forma o chamado Next Generation Weapon System (NGWS). Em vez de um único avião realizar todas as funções, diferentes plataformas conectadas dividem as tarefas no campo de batalha.
Essa arquitetura significa que várias partes do FCAS podem continuar avançando mesmo se o desenvolvimento do caça enfrentar atrasos ou divisão industrial.
Para muitos analistas, a combat cloud pode ser o elemento mais transformador do FCAS.
A proposta é criar uma rede segura — com uso intensivo de dados e inteligência artificial — que conecte sensores e sistemas de combate em terra, no mar, no ar, no espaço e no ciberespaço.
Na prática, isso permitiria:
Os remote carriers, por sua vez, funcionariam como “wingmen leais” (companheiros de voo autônomos). Esses drones poderiam carregar sensores, sistemas de guerra eletrônica ou armamentos, reduzindo o risco para a aeronave tripulada.
Como essas capacidades dependem fortemente de software, redes e padrões digitais, elas não precisam necessariamente de um único modelo de caça para funcionar.
A invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia em 2022 transformou profundamente as prioridades de defesa na Europa.
Os gastos militares do bloco aumentaram rapidamente. Em 2024, os países da União Europeia gastaram €343 bilhões em defesa — um aumento de 19% em relação ao ano anterior. As projeções indicam que o total pode chegar a cerca de €392 bilhões em 2025.
Esse novo cenário reforça várias ideias por trás do FCAS:
Ao mesmo tempo, a guerra também cria pressão para investir em capacidades imediatas, como munições, defesa aérea e modernização rápida de forças — o que pode competir com projetos de longo prazo como um caça de sexta geração.
Com o impasse industrial persistindo, analistas e executivos do setor já discutem um cenário alternativo: um modelo com dois caças diferentes.
Nesse arranjo possível:
Seria uma mudança significativa em relação à visão original de um único caça europeu, mas ainda preservaria a cooperação tecnológica central.
Cada vez mais, especialistas veem o FCAS evoluindo para um modelo em que o foco principal não é o avião em si, mas a arquitetura digital compartilhada.
Se os governos impuserem interfaces abertas e padrões comuns, diferentes aeronaves nacionais poderiam operar dentro de um mesmo ecossistema europeu de combate aéreo, conectadas por redes, sensores e armamentos integrados.
A alternativa seria a fragmentação: programas nacionais incompatíveis entre si.
Independentemente de como a disputa industrial será resolvida, uma tendência já está clara: o futuro do poder aéreo europeu será cada vez mais conectado, distribuído e cooperativo — mesmo que o caça que esteja no centro desse sistema ainda não esteja totalmente definido.