A aposta em Londres não é por acaso. O Reino Unido tem sido um dos aliados mais firmes de Kyiv desde o início da invasão em grande escala da Rússia em 2022. O governo britânico, junto com a França e outros parceiros, chegou a discutir possíveis garantias de segurança robustas após um eventual cessar‑fogo — incluindo até o envio de tropas europeias para ajudar a estabilizar o país.
Para Kyiv, ampliar o papel britânico pode ajudar a:
Zelensky também tem enfatizado repetidamente que a Europa precisa participar diretamente das negociações e da futura arquitetura de segurança do continente — e não deixar o processo concentrado apenas em Washington.
Apesar de várias rodadas de contatos diplomáticos, ainda não surgiu um acordo. Dois temas continuam bloqueando o progresso: território e garantias de segurança.
A Ucrânia insiste que qualquer acordo precisa preservar sua integridade territorial e se recusa a reconhecer formalmente a perda de áreas ocupadas pela Rússia.
Moscou, por sua vez, exige que as forças ucranianas se retirem de regiões que a Rússia afirma ter anexado — incluindo partes de Donetsk, Luhansk, Zaporizhzhia e Kherson — como condição para avançar nas negociações.
Essas posições são praticamente incompatíveis. O próprio Zelensky afirmou que até agora não houve qualquer compromisso possível sobre a questão territorial, mesmo com pressões internacionais para possíveis concessões difíceis.
Outro ponto crítico é o futuro alinhamento estratégico da Ucrânia.
Kyiv quer garantias de segurança vinculantes que impeçam uma nova invasão — potencialmente semelhantes às proteções coletivas oferecidas pela OTAN.
A Rússia se opõe fortemente a qualquer acordo desse tipo, argumentando que isso colocaria a Ucrânia definitivamente dentro do sistema de segurança ocidental. Essa divergência se tornou um dos principais impasses nas negociações.
No campo de batalha, a situação é complexa. A Ucrânia conseguiu evitar um colapso militar e frear parte do avanço russo, mas enfrenta crescente desgaste humano.
Um dos maiores desafios é a falta de soldados de infantaria. O governo anunciou reformas nas forças armadas para melhorar recrutamento, treinamento e a rotatividade de militares que já servem há muito tempo na linha de frente.
Mesmo assim, a Rússia também não conseguiu alcançar uma vitória decisiva. Avaliações militares indicam que os avanços russos desaceleraram entre o final de 2025 e o início de 2026, enquanto forças ucranianas continuam contestando o controle em vários setores da frente.
Em abril de 2026, as forças russas chegaram a registrar uma perda líquida de território pela primeira vez desde a incursão ucraniana em Kursk, em 2024.
Além disso, a Ucrânia intensificou ataques de longo alcance contra bases militares e infraestrutura petrolífera dentro da própria Rússia, tentando aumentar os custos econômicos e logísticos da guerra para Moscou.
Outro fator central é o financiamento da guerra.
O orçamento ucraniano depende fortemente de ajuda internacional. Em 2026, os gastos do governo ultrapassam muito as receitas domésticas, criando um grande déficit que precisa ser coberto por parceiros estrangeiros.
Instituições europeias e credores internacionais já mobilizaram grandes pacotes de apoio financeiro, incluindo mecanismos de empréstimo para ajudar a financiar a Ucrânia até 2026 e 2027.
Mesmo assim, continuam existindo lacunas significativas. Estimativas indicam que o país ainda enfrenta um déficit de bilhões de euros para despesas de defesa, apesar da ajuda já prometida.
Esses fatores juntos criam um cenário diplomático delicado.
A escassez de soldados e a dependência financeira aumentam a urgência de garantir apoio internacional de longo prazo — e eventualmente chegar a algum tipo de acordo. Por outro lado, a resistência militar da Ucrânia e o apoio ocidental também dão a Kyiv motivos para rejeitar um acordo que simplesmente congele ganhos territoriais russos sem garantias sólidas de segurança.
É nesse contexto que Zelensky tenta trazer o Reino Unido e outras potências europeias para um papel mais central. A ideia é transformar a unidade europeia, o apoio econômico e a resistência militar ucraniana em maior poder de negociação.
Por enquanto, porém, a guerra continua sendo uma disputa de resistência: a Rússia aposta no desgaste prolongado, enquanto a Ucrânia tenta aumentar o custo do conflito e fortalecer sua posição nas futuras negociações.