Essa mudança reflete dois fatores principais: maior fiscalização europeia sobre aquisições estrangeiras de empresas estratégicas e o interesse das empresas chinesas em criar bases produtivas permanentes dentro da União Europeia.
A maior parte desses investimentos está concentrada na cadeia industrial de veículos elétricos e baterias.
A Europa está acelerando sua transição para a mobilidade elétrica, criando forte demanda por baterias e componentes. Nesse cenário, fabricantes chineses ganharam espaço rapidamente e já respondem por cerca de um quarto das vendas de veículos elétricos na União Europeia.
Construir fábricas dentro do bloco europeu permite que essas empresas:
Entre os investimentos mais importantes estão projetos de empresas como CATL, AESC e Huayou Cobalt, que anunciaram ou construíram fábricas de baterias em países como Hungria, Alemanha e França.
Um dos exemplos mais marcantes dessa estratégia é a gigafábrica de baterias da CATL em Debrecen, na Hungria.
O projeto vale mais de €7 bilhões e foi planejado para se tornar uma das maiores fábricas de baterias da Europa. A produção deve abastecer grandes montadoras como BMW e Mercedes‑Benz.
A instalação ilustra bem a lógica por trás da nova onda de investimentos: empresas chinesas estão se posicionando dentro do ecossistema automotivo europeu, com produção local voltada diretamente às montadoras do continente.
Entre todos os países europeus, a Hungria emergiu como o principal polo de investimento chinês em projetos industriais.
Dados do MERICS e do Rhodium Group indicam que o país respondeu por cerca de 31% de todo o investimento direto chinês na Europa, a maior participação entre os países do continente.
Alguns fatores explicam essa concentração:
Base automotiva consolidada
A Europa Central abriga importantes fábricas de montadoras europeias, criando um ambiente ideal para fornecedores de baterias.
Grandes projetos de EV e baterias
Investimentos de empresas chinesas no setor de energia e mobilidade elétrica criaram um cluster industrial ligado à cadeia de veículos elétricos.
Acesso ao mercado único da UE
Produzir na Hungria permite que empresas chinesas fabriquem dentro da União Europeia e vendam livremente em todo o bloco.
Para a União Europeia, o aumento do investimento chinês traz benefícios econômicos claros — mas também riscos estratégicos.
Por um lado, novos projetos industriais podem:
Por outro, autoridades europeias expressam preocupação com vários pontos:
Essas questões estão no centro do debate econômico e industrial em Bruxelas.
A resposta europeia tem buscado equilibrar abertura econômica e proteção estratégica.
Triagem mais rigorosa de investimentos estrangeiros
A UE reforçou mecanismos de análise de investimento externo, especialmente em setores considerados estratégicos.
Investigações sobre subsídios e medidas comerciais
A Comissão Europeia iniciou investigações sobre subsídios ao setor de veículos elétricos da China e avalia tarifas para compensar possíveis distorções de mercado.
Investimento com condições
Algumas propostas discutidas em Bruxelas sugerem exigir contrapartidas — como produção local, geração de valor e cooperação tecnológica — para grandes investimentos estrangeiros.
Tudo indica que o investimento chinês em fábricas de baterias e veículos elétricos na Europa continuará forte nos próximos anos. A região precisa expandir rapidamente sua produção para cumprir metas climáticas, enquanto empresas chinesas estão entre as mais avançadas e competitivas do setor.
O desafio para a Europa será encontrar um equilíbrio: aproveitar o capital e a tecnologia que chegam com esses projetos sem criar dependências industriais de longo prazo.
Em outras palavras, a transição europeia para veículos elétricos está cada vez mais ligada ao investimento industrial chinês — mas os termos dessa parceria ainda estão sendo definidos.