Segundo análises citadas por bancos e consultorias, cerca de 80 milhões de toneladas por ano de GNL — aproximadamente 19% da capacidade global — foram afetadas por interrupções relacionadas ao conflito e às dificuldades de transporte na região .
A Administração de Informação de Energia dos EUA (EIA) também aponta que as restrições no Estreito de Hormuz reduziram a oferta global de GNL e ampliaram a diferença de preços entre os principais mercados regionais .
Para a Europa, isso significa a perda de uma parte importante da oferta flexível do mercado global.
Ao mesmo tempo, sinais de recuperação da demanda asiática por GNL começam a aparecer.
Grandes importadores como China e Coreia do Sul estão aumentando compras para consumo de verão e para reforçar seus próprios estoques. Essa demanda adicional está apertando o mercado e intensificando a disputa por cargas disponíveis .
No comércio global de GNL, os navios normalmente seguem para o mercado que oferece o melhor preço líquido. Quando compradores asiáticos pagam mais, traders redirecionam as cargas que poderiam ir para terminais europeus.
Isso significa que, para garantir fornecimento, a Europa precisa aumentar seus preços para continuar atraindo carregamentos.
O principal indicador de preço do gás na Europa, o TTF (Title Transfer Facility) — hub de negociação localizado nos Países Baixos — voltou a ultrapassar €50/MWh em meio ao aperto no mercado.
Esse aumento funciona como um sinal econômico para o mercado global de GNL: preços mais altos ajudam a atrair navios para a Europa em vez da Ásia. Ao mesmo tempo, o avanço do TTF reflete o prêmio de risco associado a tensões geopolíticas e incertezas na oferta.
Analistas alertam que, se a demanda asiática continuar se fortalecendo ou se as interrupções persistirem, os preços europeus podem subir ainda mais .
Outro fator crítico é o nível relativamente baixo de armazenamento no início da temporada de reabastecimento.
Em 1º de abril, os estoques de gás da União Europeia estavam cerca de 28% cheios, o equivalente a aproximadamente 314 TWh ou 29 bilhões de metros cúbicos — abaixo dos níveis observados nos três anos anteriores .
Como os reservatórios começaram o ciclo em uma posição mais fraca, a Europa precisa de fluxos consistentes de GNL durante todo o verão para atingir as metas de preparação para o inverno.
Qualquer interrupção na oferta ou aumento na demanda tende, portanto, a ter impacto maior nos preços e na velocidade de recomposição dos estoques.
O verão também traz pressões adicionais sobre o mercado de gás.
Em períodos de calor intenso, usinas termelétricas costumam usar mais gás natural para gerar eletricidade destinada ao ar‑condicionado. Ao mesmo tempo, operadores de armazenamento injetam gás em cavernas e reservatórios subterrâneos para formar reservas para o inverno.
Essa combinação — consumo corrente mais armazenamento — exige grandes volumes de importação de GNL ao longo do verão.
Se a Ásia também estiver comprando mais nesse mesmo período, o equilíbrio global fica ainda mais apertado.
Instituições financeiras e organizações internacionais apresentam cenários diferentes para os próximos anos.
A Agência Internacional de Energia (IEA) prevê que as importações asiáticas de GNL devem voltar a crescer em 2026 após queda em 2025, movimento que pode intensificar a competição global por cargas .
O banco ING tem uma visão mais otimista no médio prazo. Segundo suas projeções, o aumento da capacidade de exportação de GNL — especialmente dos Estados Unidos e do Catar — pode aliviar o mercado e levar o preço médio europeu para cerca de €30/MWh, embora a volatilidade de curto prazo ainda seja provável .
Já o Bank of America mantém uma visão mais cautelosa: mesmo após revisar suas projeções para baixo, o banco estima que o TTF médio em 2026 fique perto de €55/MWh, refletindo estoques baixos e desafios para reabastecer rapidamente os reservatórios .
Analistas do Goldman Sachs também alertam que o mercado pode estar subestimando o impacto potencial de novas interrupções no Estreito de Hormuz e da recuperação da demanda asiática, fatores que poderiam pressionar os preços para cima .
A Europa provavelmente não enfrenta um risco imediato de escassez de gás. No entanto, o sistema atual deixa pouco espaço para choques inesperados.
Com menor dependência de gasodutos russos e maior dependência do GNL negociado globalmente, o abastecimento europeu passou a depender mais de eventos geopolíticos, rotas marítimas e da demanda asiática.
Com estoques iniciais baixos e competição crescente por cargas, até choques moderados — como ondas de calor, interrupções logísticas ou maior consumo na Ásia — podem provocar novos picos de preços.
É por isso que a segunda queda consecutiva nas importações de GNL chama tanta atenção: ela mostra como o equilíbrio global do gás pode apertar rapidamente justamente quando a Europa mais precisa de abastecimento para se preparar para o próximo inverno.