Em resumo, a divisão interna reduz o poder de barganha europeu e dificulta uma política externa consistente.
Kallas também tem alertado os governos europeus para não fecharem negociações comerciais separadas com Washington. A razão principal é institucional: na União Europeia, a política comercial é conduzida coletivamente pela Comissão Europeia em nome de todo o bloco.
Esse alerta surge em um momento de tensão nas relações comerciais transatlânticas. Em julho de 2025, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciaram um acordo político para reduzir disputas tarifárias e trazer mais previsibilidade às relações comerciais.
Mesmo assim, a implementação do acordo tem sido complicada. Parlamentares europeus e governos nacionais continuam divididos sobre detalhes das negociações, e autoridades reconhecem que ainda há pontos importantes a resolver.
Nesse contexto, Kallas teme que acordos bilaterais entre Washington e capitais europeias enfraqueçam a posição coletiva da UE e tornem mais difícil negociar em condições equilibradas.
A própria União Europeia enfrenta divergências importantes que tornam o apelo de Kallas mais urgente.
Um dos principais pontos de tensão é a política em relação à Rússia. Alguns países defendem manter pressão máxima sobre Moscou antes de qualquer negociação, enquanto outros consideram que conversas diretas podem ser necessárias para buscar uma solução para a guerra na Ucrânia.
Essa falta de consenso complica decisões estratégicas e reforça o argumento de Kallas de que a Europa precisa primeiro definir uma posição comum antes de agir externamente.
Autoridades russas também comentaram a possibilidade de Kallas desempenhar um papel em eventuais negociações entre a União Europeia e Moscou.
O porta‑voz do Kremlin, Dmitry Peskov, afirmou que ela provavelmente teria dificuldades nesse papel e sugeriu que não seria a interlocutora preferida de Moscou para esse tipo de diálogo.
A reação reflete o clima tenso entre Bruxelas e o Kremlin desde a invasão russa da Ucrânia e mostra como a diplomacia europeia enfrenta resistência externa ao mesmo tempo em que tenta manter unidade interna.
O alerta de Kallas ocorre em um momento em que a ordem internacional baseada em regras está sob pressão, as relações transatlânticas enfrentam mudanças e a guerra na Ucrânia continua sendo um fator central para a segurança europeia.
Para a chefe da diplomacia da UE, a conclusão é direta: a capacidade da Europa de influenciar a política global depende menos do poder individual de cada país e mais da capacidade do bloco de agir como um único ator político e econômico.