O El Niño ocorre quando as águas do Pacífico tropical central e oriental ficam mais quentes do que o normal. Esse aquecimento altera a circulação atmosférica global, o que pode mudar rotas de tempestades e padrões de precipitação em várias partes do planeta.
Quando isso acontece, vários tipos de eventos extremos podem se intensificar:
• Ondas de calor: o El Niño costuma elevar levemente a temperatura média global, o que pode agravar ondas de calor quando combinado com o aquecimento global já existente.
• Incêndios florestais: mudanças nas chuvas e temperaturas mais altas podem secar a vegetação e prolongar temporadas de fogo em regiões vulneráveis. Alguns pesquisadores alertam para o risco de um ano excepcionalmente severo de incêndios em escala global.
• Enchentes: enquanto certas áreas ficam mais secas, outras podem receber chuvas mais intensas devido à reorganização das tempestades tropicais.
• Secas: alterações na circulação atmosférica podem reduzir as chuvas em algumas regiões, aumentando o estresse hídrico e agrícola.
Por isso, o El Niño não produz um único padrão climático mundial. Na prática, ele redistribui calor, chuva e seca pelo planeta, afetando cada região de maneira diferente.
Cientistas enfatizam repetidamente que o El Niño não é a causa fundamental do aumento dos extremos climáticos. O fenômeno existe há milhares de anos como parte natural do sistema climático.
O que mudou foi o contexto climático global.
O aquecimento provocado pelas emissões de gases de efeito estufa elevou as temperaturas médias do planeta e aumentou a quantidade de umidade que a atmosfera consegue reter. Como resultado, eventos de El Niño hoje podem gerar ondas de calor mais intensas, chuvas mais fortes e secas mais severas do que episódios semelhantes há algumas décadas.
Em outras palavras, o El Niño funciona como um amplificador sobre um clima que já está mais quente.
Reconhecendo esse efeito, a NOAA introduziu recentemente um indicador atualizado — o Relative Oceanic Niño Index (RONI) — que tenta medir o fenômeno levando em conta o aquecimento de longo prazo dos oceanos.
Eventos climáticos extremos se tornam desastres quando atingem populações vulneráveis. E alguns fatores estruturais estão aumentando essa vulnerabilidade.
Um deles é a pressão econômica associada aos riscos climáticos. Desastres naturais estão elevando os custos de seguro residencial e, em algumas regiões, tornando mais difícil obter cobertura.
Pesquisas também indicam que danos climáticos podem agravar crises de moradia e instabilidade econômica, especialmente quando os custos de reconstrução superam o valor do seguro ou quando famílias precisam arcar com perdas financeiras após desastres.
Além disso, especialistas alertam que cortes de pessoal, financiamento ou capacidade de pesquisa em agências responsáveis por previsão meteorológica e resposta a desastres podem enfraquecer sistemas de preparação e resposta que comunidades dependem antes e depois de eventos extremos.
O El Niño pode voltar em 2026, e as previsões indicam que essa possibilidade está aumentando. Caso se forme, o fenômeno pode amplificar temporariamente padrões de clima extremo em várias partes do mundo.
Mas cientistas enfatizam um ponto central: o maior risco não é o El Niño em si. O perigo real vem de um sistema climático já aquecido, que torna ciclos naturais muito mais intensos do que eram no passado.
Nesse cenário, até mesmo um El Niño moderado pode gerar ondas de calor mais fortes, chuvas mais voláteis e maior risco de incêndios florestais — transformando uma oscilação climática natural em um verdadeiro teste para o planeta.