A lógica europeia é direta: se Moscou tem dificuldade para impor seus objetivos militarmente, Bruxelas não quer permitir que esses mesmos objetivos sejam recuperados por meio de um acordo frágil. Kallas já descreveu a tarefa como sair de uma situação em que a Rússia “finge negociar” para outra em que ela realmente precise negociar .
A desconfiança de Kallas vem da distância entre o discurso russo e a conduta russa. Em declarações à imprensa em maio, ela chamou de “muito cínica” a proposta de cessar-fogo de Putin ligada a um desfile, dizendo que ela serviria para proteger o evento enquanto a Rússia continuava atacando civis na Ucrânia . Kallas contrastou isso com a disposição ucraniana de cumprir ou propor cessar-fogos incondicionais
.
Por isso, a UE volta sempre ao mesmo ponto mínimo: um cessar-fogo imediato e incondicional como primeiro passo para encerrar a guerra . Até que Moscou aceite esse tipo de compromisso, a posição de Kallas é que linguagem de paz não deve ser confundida com intenção real de paz.
Sobre o descontentamento doméstico na Rússia, o material disponível permite menos conclusões firmes. As fontes citadas sustentam melhor os indicadores militares e diplomáticos: perdas no campo de batalha, ataques ucranianos em maior profundidade, um desfile mais discreto em Moscou e a avaliação da UE de que a Rússia ainda expande seu esforço militar .
Isso não significa que tensões internas sejam irrelevantes. Significa apenas que, com base nestas fontes, elas não devem ser tratadas como o principal alicerce da estratégia europeia atual.
As sanções anunciadas em 11 de maio contra envolvidos no caso de crianças ucranianas acrescentam uma dimensão jurídica e humanitária à pressão da UE. As medidas miraram 16 pessoas e sete organizações acusadas de envolvimento na deportação ilegal, transferência forçada e assimilação de crianças ucranianas .
A agência QNA informou que, segundo a UE, mais de 20.500 crianças ucranianas foram deportadas desde fevereiro de 2022, e que os alvos das sanções incluem instituições ligadas à doutrinação ideológica e à militarização de menores . Kallas descreveu a deportação e a transferência forçada de crianças ucranianas como “um dos piores crimes” da guerra da Rússia
. Ela também vinculou o tema a um evento de alto nível sobre como trazer essas crianças de volta
.
Isso importa para qualquer negociação futura. A UE está sinalizando que um acordo não pode se limitar a território e linhas de cessar-fogo: responsabilização e retorno das crianças também fazem parte da agenda europeia de pressão .
Kallas também afirmou que a UE está elaborando uma lista de concessões que, na visão do bloco, a Rússia teria de fazer para garantir uma paz de longo prazo, enquanto negociações conduzidas pelos Estados Unidos davam poucos sinais de avanço .
Esse é um recado importante: a Europa não quer apenas reagir a conversas conduzidas por outros atores. Quer ajudar a definir o que um acordo sustentável deveria exigir de Moscou.
As fontes disponíveis não trazem uma lista pública completa dessas concessões, então não dá para exagerar os detalhes. O que elas mostram é a direção estratégica: apoiar a Ucrânia, manter pressão sobre a Rússia, exigir um cessar-fogo incondicional e preparar princípios de negociação que incluam obrigações russas — não apenas concessões ucranianas .
A mensagem de Kallas não é “a Rússia perdeu”. É: “não negociem como se Putin tivesse todas as cartas na mão”. Para a UE, perdas no campo de batalha, sinais de paz tratados com ceticismo, sanções ligadas às crianças ucranianas e a tentativa europeia de definir futuras concessões russas apontam para a mesma estratégia: fortalecer a posição da Ucrânia antes de qualquer acordo sério .