Embora a crise tenha exposto a profunda fragilidade estrutural de um mundo atado a um único ponto de estrangulamento marítimo, ela também agiu como um poderoso acelerador para a transição para a energia limpa. De acordo com uma análise da BloombergNEF, choques energéticos sucessivos — da pandemia à guerra na Ucrânia, e agora o conflito no Irã — estão se mostrando uma "benção para a transição energética", à medida que as nações lutam para se desacoplar dos combustíveis fósseis importados e reforçar sua segurança energética .
Mesmo antes da crise de Ormuz, 2025 já era um ano histórico. O investimento global na transição energética atingiu um recorde de US$ 2,3 trilhões, um aumento de 8% em relação a 2024 . Esses gastos foram dominados pelo transporte eletrificado (US$ 893 bilhões), energia renovável (US$ 690 bilhões) e redes de energia (US$ 483 bilhões)
. Crucialmente, o investimento em fornecimento de energia limpa superou o de combustíveis fósseis pelo segundo ano consecutivo, com a diferença se ampliando para US$ 102 bilhões
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Desde o bloqueio, esse momento financeiro ganhou uma marcha a mais. A fuga de capitais da volatilidade dos combustíveis fósseis para a energia limpa tem sido drástica. O ETF Invesco WilderHill Clean Energy disparou 118% em um único mês após o fechamento, enquanto os fluxos para fundos de energia limpa atingiram máximas de cinco anos . Esse comportamento do investidor reflete uma recalibração central: o "prêmio de segurança nacional" agora é um componente fundamental nas avaliações de projetos de energia, com a resiliência da cadeia de suprimentos e a fabricação doméstica priorizadas em relação à pura paridade de custos
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O relatório New Energy Outlook 2026 da BloombergNEF projeta que a energia solar se tornará a maior fonte única de eletricidade do mundo até 2032, um cronograma provavelmente acelerado pela crise atual . A expectativa é de que o conflito impulsione particularmente as tecnologias de energia solar e baterias
. A empresa de análise projeta que 70 GW adicionais de capacidade eólica, solar e de baterias serão construídos a cada ano até o próximo ciclo presidencial
. Na frente de armazenamento, a BloombergNEF prevê 158 GW/459 GWh de implantações globais em 2026, um salto significativo em relação aos 112 GW/307 GWh registrados em 2025
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Na Ásia e na Europa, a resposta política está se acelerando. A Europa está redobrando a adoção de veículos elétricos (VEs) e a instalação de bombas de calor, enquanto China e Índia continuam a dominar a expansão nuclear e solar na região da Ásia-Pacífico . Essa implantação também está ajudando a absorver a nova demanda de energia; em 2025, a produção conjunta de energia eólica e solar cresceu 18%, absorvendo 99,6% de toda a nova demanda de energia e colocando as renováveis à frente da energia a carvão pela primeira vez
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A aceleração da energia limpa coexiste com uma realidade sombria de curto prazo. Com o fornecimento de GNL cortado e os preços em disparada, várias nações asiáticas foram forçadas a reativar usinas de energia a carvão que estavam desativadas para evitar um colapso econômico. Esta é uma reversão direta de anos de progresso na redução gradual do carvão e representa o custo imediato e sujo do choque de oferta . A crise expõe uma tensão fundamental no cronograma da transição energética: a capacidade eólica e solar pode ser implantada rapidamente, mas substituir o volume de petróleo perdido por Ormuz exigiria cerca de uma década de construção sustentada
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A aceleração da energia limpa não está acontecendo no vácuo. Três grandes restrições estão moldando o cenário de investimentos:
Esta janela de seis meses para a limpeza, combinada com um cessar-fogo duradouro que permanece indefinido, significa que, mesmo nos cenários mais otimistas, é improvável que os fluxos totais de petróleo e GNL sejam retomados antes do final de 2026, no mínimo. O mundo está, portanto, preso em um período de preços de energia estruturalmente elevados, criando tanto um freio econômico doloroso quanto um argumento de investimento sem precedentes para a alternativa limpa.
O que aconteceu no Estreito de Ormuz?
Em 28 de fevereiro de 2026, após ataques militares conjuntos dos EUA e Israel, o Irã, através da sua Guarda Revolucionária, iniciou um bloqueio de fato do Estreito de Ormuz, impedindo a passagem de navios comerciais. Isso cortou cerca de 20% do fornecimento global de petróleo e GNL.
Como isso afeta o preço da gasolina e da energia no Brasil?
Sendo o petróleo uma commodity global, a disparada nos preços internacionais do Brent, que ultrapassou os US$ 100, repercute diretamente nos custos de refino e, consequentemente, nos preços dos combustíveis e da energia em todo o mundo, inclusive no Brasil. O impacto é amplificado pela alta do dólar.
A crise vai acelerar o uso de energia solar e eólica?
Sim, e de forma drástica. O choque de oferta tornou o investimento em energias renováveis uma questão de segurança nacional e econômica. Fundos de energia limpa estão batendo recordes de aportes, e o investimento global no setor, que já era recorde, deve se intensificar para reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados.
Quando o Estreito de Ormuz será reaberto?
A previsão mais realista é pessimista. O Pentágono estima que a remoção das minas navais levará até seis meses, e esse trabalho só pode começar quando o conflito terminar de fato. Sem um cessar-fogo duradouro, o fluxo normal de petróleo e GNL não deve ser retomado antes do fim de 2026.
Quais países estão sendo mais afetados?
As economias da Ásia, que dependem fortemente do GNL do Catar, são as mais expostas. A Europa também sofre um forte impacto inflacionário. Alguns países asiáticos reativaram usinas a carvão como medida emergencial. Já os grandes produtores de petróleo que não dependem do estreito acabam se beneficiando dos preços elevados.