A escala da alavanca é enorme. Em dezembro de 2025, a China autorizou a entrega de 120 jatos Airbus previamente encomendados, trazendo um alívio parcial . No entanto, um acordo muito maior — um potencial novo pedido de aproximadamente 500 aeronaves — continua parado . Mesmo após a liberação parcial, o CEO da Airbus, Guillaume Faury, alertou os funcionários no início de 2026 que a empresa sofreu danos logísticos e financeiros "significativos" com as tensões comerciais entre EUA e China e que agora deve se preparar para "novos e inquietantes riscos geopolíticos" .
O alvo da campanha de pressão é inequívoco. O diretor-executivo da Agência Europeia para a Segurança da Aviação (EASA), Florian Guillermet, afirmou em abril de 2025 que o C919 precisará de três a seis anos adicionais para receber a certificação europeia, empurrando a janela de aprovação mais cedo para 2028 e, possivelmente, até 2031 . A COMAC esperava originalmente obter o sinal verde até 2025 . A EASA enviou pilotos de teste a Xangai em novembro de 2025 para voos de verificação , mas sua liderança tem afirmado consistentemente que a agência levará o tempo que for necessário para uma avaliação de segurança adequada .
Usar encomendas da aviação comercial como alavanca diplomática não é novidade para Pequim. Em 2012–2013, a China bloqueou cerca de US$ 12 bilhões em pedidos da Airbus para protestar contra o esquema de comércio de emissões da União Europeia . Um congelamento semelhante de 45 pedidos de A330 foi parcialmente suspenso mais tarde, após apelo diplomático da Airbus e uma visita presidencial francesa . A atual campanha de pressão segue a mesma lógica estratégica, atualizada para uma era de ambição da COMAC.
A tática de atraso com a Airbus não opera isoladamente. Em abril de 2025, a China instruiu as companhias aéreas domésticas a parar de receber entregas de aeronaves da Boeing e a suspender as compras de peças e equipamentos de aviação dos EUA, escalando a disputa comercial direta com Washington . Enquanto isso, Bruxelas impôs tarifas sobre veículos elétricos chineses, adicionando novo atrito entre UE e China a um relacionamento já tensionado pelo protecionismo americano . A Airbus foi apanhada diretamente no fogo cruzado — atingida por interrupções na cadeia de suprimentos, um congelamento temporário dos EUA nas exportações de motores para a China e uma escassez de motores que a forçou a armazenar jatos não entregues .
A China também transferiu alguns pedidos de aeronaves para a Airbus como contrapeso às tensões com os EUA, ao mesmo tempo que mantém essas mesmas entregas como reféns para pressionar a Europa na certificação do COMAC . O resultado é uma corda bamba estratégica: Pequim corteja a Airbus em uma via enquanto a pressiona em outra.
A profunda dependência comercial da Airbus em relação ao mercado de aviação chinês dá peso real à tática. Companhias aéreas chinesas operam centenas de jatos da Airbus e têm outras centenas em pedidos firmes. Ao transformar a autorização final de entrega em um controle político, Pequim pode prejudicar diretamente o fluxo de caixa trimestral e as metas anuais de entrega da Airbus — criando um incentivo para que governos e reguladores europeus prestem mais atenção à velocidade da jornada de certificação do COMAC.