Mesmo com esse feito tecnológico, o longa não está disputando os principais prêmios do festival. Ele aparece principalmente no Marché du Film, o mercado de negócios de Cannes onde produtores, distribuidores e investidores negociam novos projetos.
Apesar da curiosidade crescente sobre a tecnologia, a organização do festival deixou claro que há limites. Para a edição de 2026, Cannes decidiu que filmes em que a IA generativa cria os principais elementos criativos — como roteiro, performances ou imagens principais — não podem competir pela Palma de Ouro nem integrar a competição oficial.
Isso não significa uma proibição total. O festival faz uma distinção importante entre dois usos diferentes da tecnologia:
O primeiro já é cada vez mais comum. O segundo, por enquanto, fica fora da competição principal. Segundo organizadores, a ideia é preservar o cinema como uma forma de arte essencialmente humana, enquanto a indústria continua experimentando novas ferramentas digitais.
Nos bastidores de Cannes, muitos profissionais da indústria já enxergam a IA menos como curiosidade tecnológica e mais como uma ferramenta prática.
O diretor Xavier Gens afirmou que, se as ferramentas atuais existissem quando produziu o filme da Netflix Under Paris, os efeitos visuais poderiam ter sido concluídos meses mais rápido e por cerca de metade do custo.
Outro exemplo veio do diretor Steven Soderbergh, que utilizou ferramentas de IA para criar imagens e gráficos em um documentário sobre John Lennon e Yoko Ono, ajudando a ilustrar momentos descritos em entrevistas históricas.
Esses casos refletem uma tendência maior: usar IA principalmente em áreas como efeitos visuais, composição de cenas e experimentação visual, onde a automação pode economizar tempo e orçamento.
Além da parte técnica, a discussão em Cannes também é filosófica. Em coletivas de imprensa e painéis do festival, cineastas discutiram qual deve ser o papel da IA na criação artística.
A atriz Demi Moore, integrante do júri de Cannes, afirmou que resistir completamente à tecnologia pode não ser realista. Para ela, a indústria precisará aprender a trabalhar com IA em vez de tentar bloqueá‑la completamente.
O diretor Darren Aronofsky, que tem explorado projetos com animação baseada em IA, disse que a velocidade de evolução dessas ferramentas é impressionante, descrevendo os avanços recentes como “de tirar o fôlego”.
Nenhum dos dois defende substituir cineastas humanos. Em vez disso, a visão predominante é a de que a IA pode funcionar como assistente criativo, da mesma forma que tecnologias como edição digital, CGI e captura de movimento transformaram o cinema nas últimas décadas.
O debate sobre IA no cinema ainda está longe de terminar.
Defensores da tecnologia afirmam que ela pode democratizar o cinema, permitindo que equipes pequenas criem mundos e efeitos visuais que antes exigiam grandes estúdios e enormes orçamentos.
Já os críticos apontam preocupações importantes, como:
O que Cannes 2026 mostra é que o cinema está entrando em uma nova fase. A inteligência artificial deixou de ser apenas uma curiosidade experimental — mas ainda não é totalmente aceita como motor criativo principal.
Por enquanto, o consenso emergente na indústria parece ser um meio‑termo: IA como ferramenta que acelera o trabalho dos cineastas, não como substituta da criatividade humana.
Se esse equilíbrio vai durar depende de dois fatores: a velocidade com que a tecnologia evolui e como os próprios cineastas escolhem usá‑la nos próximos anos.