A dívida relacionada à IA se aproximava de 15% das emissões de títulos corporativos de grau de investimento em 2026, segundo a Reuters. Para encontrar compradores adicionais e evitar a saturação do mercado em dólar, bancos e empresas passaram a explorar outras moedas e regiões.
Títulos corporativos de alta qualidade podem, portanto, influenciar o preço relativo dos títulos públicos — principalmente quando os governos também estão emitindo grandes volumes. Ainda assim, a relação de causa e efeito precisa ser tratada com cautela. Os juros dos Treasuries também respondem às expectativas de inflação, aos déficits fiscais, à oferta de dívida do governo, ao crescimento econômico, aos riscos geopolíticos, às expectativas para os bancos centrais e ao prêmio de prazo. A própria Reuters alertou que o boom da dívida de IA não deve ser usado como explicação única para o estresse no mercado de títulos americano.
Não existe um total único e definitivo para a chamada “dívida de IA”. As estimativas variam conforme a data de corte e o que é incluído no cálculo: apenas os títulos emitidos pelos hyperscalers ou também financiamento de data centers, crédito privado, estruturas securitizadas, fornecedores e outras empresas ligadas ao ecossistema.
Por isso, os números publicados vão de aproximadamente US$ 194 bilhões para quatro grandes emissores até o início de julho a estimativas superiores a US$ 220 bilhões para um grupo mais amplo de hyperscalers em período posterior.
O Goldman Sachs estimou cerca de US$ 489 bilhões em dívida relacionada à IA emitida em 2026, com aproximadamente 40% vindo diretamente dos hyperscalers.
A necessidade total de financiamento é ainda maior. O Morgan Stanley estima que os gastos com data centers e equipamentos relacionados à IA podem chegar a US$ 3 trilhões até 2028, com cerca da metade potencialmente vindo de fontes externas, como mercados de crédito. Outra estimativa aponta uma necessidade de aproximadamente US$ 1,75 trilhão em crédito dentro de um investimento total de US$ 3,2 trilhões.
São projeções — e não totais já confirmados — que dependem da definição de infraestrutura de IA e das formas de financiamento consideradas.
A internacionalização dessa captação ficou evidente na primeira emissão da Alphabet em dólares australianos. Em 19 de agosto, a controladora do Google levantou A$ 5,5 bilhões em títulos com vencimentos de três, cinco, 10 e 20 anos. As ordens dos investidores superaram A$ 18 bilhões — mais de três vezes o valor efetivamente vendido.
A tranche mais longa teve rendimento de 6,98%, pouco abaixo de 7%. A operação foi descrita como a primeira emissão em dólares australianos de um hyperscaler de IA e como a maior venda de títulos corporativos já realizada na Austrália.
O negócio é importante por dois motivos. Primeiro, mostra que essas empresas não dependem apenas dos investidores americanos. Segundo, revela como a emissão em diferentes moedas abre acesso a novas fontes de demanda — embora também traga riscos de câmbio e particularidades de liquidez e estrutura de mercado.
A Alphabet já tem presença relevante nos mercados de títulos corporativos em euros, libras esterlinas, francos suíços e ienes. Em março, a Amazon levantou € 14,5 bilhões em uma operação dividida em oito partes, considerada a maior emissão já realizada no mercado corporativo em euros. Em vez de concentrar toda a necessidade de financiamento em um único mercado, as empresas estão distribuindo a captação entre moedas e bases de investidores diferentes.
A onda de empréstimos para financiar a IA acontece ao mesmo tempo em que os governos também buscam grandes volumes de recursos de longo prazo. Os custos reais de financiamento nas principais economias chegaram aos maiores níveis em mais de uma década à medida que empresas de IA e governos ampliaram as emissões. Segundo a Reuters, o juro real do Treasury americano de 30 anos estava perto de máximas de 18 anos, em torno de 3%.
O rendimento nominal do Treasury americano de 30 anos também superou 5,3%, o maior nível desde 2007, em meio a preocupações com inflação, pressão fiscal, incertezas geopolíticas e uma dívida nacional americana próxima de US$ 40 trilhões.
Essa combinação cria um ambiente especialmente difícil para o mercado de renda fixa. Os investidores encontram mais alternativas corporativas, mas também exigem uma compensação maior para manter o dinheiro aplicado por décadas. O resultado pode ser a alta dos rendimentos tanto nos mercados corporativos quanto nos soberanos, mesmo quando a demanda continua forte.
A melhor forma de entender a relação é como um efeito aditivo, e não exclusivo: a dívida de IA aumenta a competição pelo capital e pode reforçar a pressão sobre o prêmio de prazo, enquanto inflação, endividamento público e riscos macroeconômicos também elevam os juros dos Treasuries de forma independente.
Os títulos de hyperscalers chamam atenção porque oferecem rendimentos entre aproximadamente 4,75% e 8%, dependendo do emissor e do prazo. Muitos têm grau de investimento e vencimentos longos, combinação que ajuda a explicar o interesse de investidores focados em geração de renda.
Mas o rendimento anunciado não conta toda a história.
Risco de duration. Parte significativa do rendimento vem de títulos de prazo longo. Se os juros de mercado subirem, o preço dos títulos já emitidos pode cair bastante. Um cupom elevado não elimina o risco de marcação a mercado de um papel com vencimento em 10 ou 20 anos.
Risco de crédito e de spread. A dívida da controladora de um hyperscaler não é equivalente à de uma incorporadora de data centers, de um fornecedor de equipamentos, de uma empresa menor de IA ou de um veículo de propósito específico. O investidor precisa analisar senioridade, garantias, grau de cobertura, contratos de locação e eventual subordinação estrutural — e não confiar apenas no rótulo “título de IA”.
Risco relacionado às receitas de IA. Boa parte dos empréstimos está sendo contraída antes de os retornos de longo prazo da infraestrutura de IA estarem comprovados. Uma monetização mais lenta, novos aumentos de investimento ou margens menores em nuvem e IA podem ampliar os spreads, mesmo que a empresa continue classificada como grau de investimento.
Risco de absorção. Livros de ordens fortes não garantem que a oferta futura será absorvida aos preços atuais. Analistas do Barclays alertaram que o mercado de títulos de grau de investimento pode não comportar todas as necessidades previstas de financiamento dos hyperscalers. À medida que as emissões crescem, os tomadores podem precisar oferecer cupons maiores, recorrer ao crédito privado, emitir ações ou adotar estruturas de financiamento mais complexas.
Risco cambial e de liquidez. Um título emitido em dólares australianos, euros ou outra moeda expõe o investidor às oscilações cambiais e a condições de liquidez diferentes. Uma proteção cambial pode reduzir parte dessa exposição, mas tem custos e riscos próprios de execução.
A dívida para financiar a IA se tornou uma nova fonte relevante de demanda por capital global e uma alternativa plausível a parte dos títulos públicos para investidores que buscam ativos de longo prazo. A conclusão mais sólida, porém, é mais restrita do que dizer que “a IA causou a alta dos juros”: o boom de emissões está aumentando o volume de financiamento que o mercado precisa absorver justamente quando os governos também tomam empréstimos em grande escala e os investidores reavaliam os riscos de inflação e duration.
Para uma carteira de renda, os títulos de hyperscalers devem ser tratados como uma alocação diversificada em crédito — e não como substitutos dos Treasuries. Uma abordagem disciplinada envolve comparar o rendimento com o prazo, avaliar a força do balanço e a senioridade da dívida, distribuir os vencimentos, administrar a exposição cambial e evitar os papéis que oferecem os maiores rendimentos sem compreender os riscos adicionais de projeto, alavancagem, liquidez e estrutura.