É um cenário de mercado coerente. Ainda não é, porém, evidência de que empresas conseguirão tomar dinheiro de forma confiavelmente mais barata em blockchain ou de que a demanda por stablecoins esteja prestes a desabar.
A emissão de títulos corporativos nos Estados Unidos chegou a aproximadamente US$ 1,68 trilhão até meados de agosto de 2026, alta de quase 27% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo dados da SIFMA citados pela Reuters. Amazon, Alphabet, Meta e Oracle emitiram juntas cerca de US$ 194 bilhões em títulos até 7 de julho de 2026 — 79% a mais do que o volume emitido por essas empresas durante todo o ano de 2025.
O salto ajuda a explicar por que emissores podem se interessar por novos canais de captação. Se a oferta de dívida continuar crescendo, empresas e investidores terão incentivos para testar infraestruturas capazes de reduzir custos administrativos ou ampliar a distribuição.
Mas o recorde de emissões permite duas leituras. Ele pode indicar que o financiamento convencional está ficando mais caro, mas também pode mostrar que o mercado de crédito americano continua profundo o suficiente para absorver operações gigantescas. As vendas de títulos de grau de investimento em agosto bateram recorde mensal, reforçando também essa segunda interpretação.
O mercado on-chain de ativos reais tokenizados, excluindo stablecoins, alcançou cerca de US$ 30 bilhões ou mais, embora os rastreadores usem definições diferentes e apresentem totais distintos. O crescimento se concentrou em produtos que geram rendimento, especialmente títulos do Tesouro americano tokenizados e crédito privado.
Esse dado é uma evidência relevante de que existe demanda por exposição a renda fixa baseada em blockchain. Ele mostra que instituições e outros investidores elegíveis utilizam produtos on-chain quando a estrutura jurídica, a custódia e o processo de resgate são considerados confiáveis.
Isso não comprova, contudo, a existência de um amplo mercado público para títulos corporativos livremente negociados. O número frequentemente citado de aproximadamente US$ 17 bilhões se refere principalmente a crédito privado tokenizado, e não a uma única carteira de dívida corporativa líquida e acessível ao varejo. O crédito privado costuma ser mais personalizado e menos líquido que um título negociado publicamente, o que faz dele um indicador fraco para medir acesso sem atrito ao crédito corporativo.
A Securities and Exchange Board of India (SEBI), órgão regulador do mercado de capitais indiano, trabalha com o Reserve Bank of India (RBI), o banco central do país, em um projeto-piloto para tokenizar títulos corporativos. A iniciativa pretende avaliar se um registro compartilhado pode permitir liquidação mais rápida, transferência simultânea de títulos e dinheiro, pagamento automatizado de cupons e redução de custos de reconciliação.
O piloto é importante porque busca melhorar uma infraestrutura de mercado existente, e não presume que a blockchain criará automaticamente um novo mercado líquido. Trata-se de uma validação oficial útil do potencial operacional da tokenização — mas ainda é um teste, não uma prova de escala comercial.
Registrar em blockchain a propriedade ou os direitos de pagamento não elimina as obrigações legais de um título corporativo. Emissores e intermediários ainda precisam lidar com regras de valores mobiliários, elegibilidade dos investidores, controles de transferência, identificação e procedimentos de prevenção à lavagem de dinheiro, custódia, divulgação de informações e infraestrutura de mercado.
Essas exigências podem limitar o grupo de compradores e a liberdade de negociação do token. Contratos inteligentes conseguem automatizar algumas funções administrativas, mas não substituem análise de crédito, estruturação, documentação jurídica, subscrição ou proteção ao investidor.
O custo total de um empréstimo corporativo inclui muito mais que liquidação e manutenção de registros. Também entram na conta risco de crédito, prazo, liquidez, distribuição, subscrição, conformidade regulatória e o retorno exigido pelos investidores para assumir esses riscos.
A tokenização pode reduzir algumas despesas de bastidores e distribuição. Isso não garante um cupom menor: a economia precisa superar o custo de desenvolver o produto e o prêmio de liquidez que investidores podem exigir para um mercado menor ou ainda pouco estabelecido.
USDT e USDC foram projetadas para manter o valor próximo de um dólar e são usadas principalmente em pagamentos, negociações e como garantia. Um token de título corporativo tem outro perfil de risco: seu preço pode oscilar conforme as taxas de juros, o prazo, os spreads de crédito e a situação financeira do emissor.
Quem troca uma stablecoin por um título corporativo não está simplesmente trocando rendimento zero por rendimento grátis. Está trocando uma utilidade semelhante à do dinheiro por um investimento sujeito a risco de prazo, de crédito e de liquidez.
A tributação também impõe limites. A receita de cupons continua sujeita às regras fiscais aplicáveis, e as vendas podem gerar ganhos ou perdas de capital. Transferências de tokens e operações em finanças descentralizadas também podem complicar o controle de lotes fiscais e as obrigações de declaração. Tokenizar um ativo, por si só, não é uma forma de escapar de impostos.
A pressão sobre os emissores de stablecoins seria maior se tokens com rendimento se tornassem fáceis de comprar, resgatar e usar como garantia. Os usuários poderiam manter menos capital parado em stablecoins de pagamento quando produtos on-chain comparáveis passassem a oferecer renda.
Isso poderia afetar a economia da emissão de stablecoins. As reservas de USDT e USDC são investidas principalmente em ativos seguros denominados em dólar, como títulos do Tesouro americano e operações compromissadas de curto prazo, enquanto os detentores dos tokens geralmente não recebem diretamente a renda gerada pelas reservas.
A resposta mais provável, porém, não seria abandonar as stablecoins. Os emissores poderiam posicioná-las como a camada monetária de um sistema financeiro on-chain mais amplo, oferecendo suporte a:
Isso aponta mais para coexistência do que substituição. Stablecoins oferecem liquidez e portabilidade do dólar. Fundos e títulos tokenizados oferecem exposição a investimentos e rendimento. Os dois produtos podem ser usados na mesma transação, em vez de disputarem exatamente a mesma função.
O histórico de Zhu Su é relevante para avaliar com que confiança sua previsão deve ser apresentada. Ele foi cofundador da Three Arrows Capital, cuja falência em 2022 ficou associada a alavancagem extrema e grandes perdas para credores, e mais tarde fundou a OPNX.
Esse histórico não refuta a tese de tokenização. Mas significa que é importante separar a afirmação de quem a faz: as evidências mais fortes vêm dos dados de emissão, dos mercados de ativos tokenizados já em funcionamento e de pilotos regulados — não da convicção de Zhu por si só.
A renda fixa tokenizada tende a crescer onde conseguir melhorar liquidação, administração e distribuição dentro de uma estrutura regulada. O mercado de títulos de 2026 e o piloto indiano ajudam a explicar por que instituições financeiras estão testando esse modelo.
A afirmação mais forte — de que uma crise da dívida americana em breve levará empresas tradicionais a emitir títulos mais baratos on-chain e fará investidores abandonar USDT e USDC em larga escala — continua sem comprovação. A tokenização pode melhorar os trilhos financeiros. Ela não elimina risco de crédito, cria liquidez instantaneamente nem transforma um título corporativo com rendimento em equivalente de dinheiro.
É um cenário de mercado coerente. Ainda não é, porém, evidência de que empresas conseguirão tomar dinheiro de forma confiavelmente mais barata em blockchain ou de que a demanda por stablecoins esteja prestes a desabar.
A emissão de títulos corporativos nos Estados Unidos chegou a aproximadamente US$ 1,68 trilhão até meados de agosto de 2026, alta de quase 27% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo dados da SIFMA citados pela Reuters. Amazon, Alphabet, Meta e Oracle emitiram juntas cerca de US$ 194 bilhões em títulos até 7 de julho de 2026 — 79% a mais do que o volume emitido por essas empresas durante todo o ano de 2025.
O salto ajuda a explicar por que emissores podem se interessar por novos canais de captação. Se a oferta de dívida continuar crescendo, empresas e investidores terão incentivos para testar infraestruturas capazes de reduzir custos administrativos ou ampliar a distribuição.
Mas o recorde de emissões permite duas leituras. Ele pode indicar que o financiamento convencional está ficando mais caro, mas também pode mostrar que o mercado de crédito americano continua profundo o suficiente para absorver operações gigantescas. As vendas de títulos de grau de investimento em agosto bateram recorde mensal, reforçando também essa segunda interpretação.
O mercado on-chain de ativos reais tokenizados, excluindo stablecoins, alcançou cerca de US$ 30 bilhões ou mais, embora os rastreadores usem definições diferentes e apresentem totais distintos. O crescimento se concentrou em produtos que geram rendimento, especialmente títulos do Tesouro americano tokenizados e crédito privado.
Esse dado é uma evidência relevante de que existe demanda por exposição a renda fixa baseada em blockchain. Ele mostra que instituições e outros investidores elegíveis utilizam produtos on-chain quando a estrutura jurídica, a custódia e o processo de resgate são considerados confiáveis.
Isso não comprova, contudo, a existência de um amplo mercado público para títulos corporativos livremente negociados. O número frequentemente citado de aproximadamente US$ 17 bilhões se refere principalmente a crédito privado tokenizado, e não a uma única carteira de dívida corporativa líquida e acessível ao varejo. O crédito privado costuma ser mais personalizado e menos líquido que um título negociado publicamente, o que faz dele um indicador fraco para medir acesso sem atrito ao crédito corporativo.
A Securities and Exchange Board of India (SEBI), órgão regulador do mercado de capitais indiano, trabalha com o Reserve Bank of India (RBI), o banco central do país, em um projeto-piloto para tokenizar títulos corporativos. A iniciativa pretende avaliar se um registro compartilhado pode permitir liquidação mais rápida, transferência simultânea de títulos e dinheiro, pagamento automatizado de cupons e redução de custos de reconciliação.
O piloto é importante porque busca melhorar uma infraestrutura de mercado existente, e não presume que a blockchain criará automaticamente um novo mercado líquido. Trata-se de uma validação oficial útil do potencial operacional da tokenização — mas ainda é um teste, não uma prova de escala comercial.
Registrar em blockchain a propriedade ou os direitos de pagamento não elimina as obrigações legais de um título corporativo. Emissores e intermediários ainda precisam lidar com regras de valores mobiliários, elegibilidade dos investidores, controles de transferência, identificação e procedimentos de prevenção à lavagem de dinheiro, custódia, divulgação de informações e infraestrutura de mercado.
Essas exigências podem limitar o grupo de compradores e a liberdade de negociação do token. Contratos inteligentes conseguem automatizar algumas funções administrativas, mas não substituem análise de crédito, estruturação, documentação jurídica, subscrição ou proteção ao investidor.
O custo total de um empréstimo corporativo inclui muito mais que liquidação e manutenção de registros. Também entram na conta risco de crédito, prazo, liquidez, distribuição, subscrição, conformidade regulatória e o retorno exigido pelos investidores para assumir esses riscos.
A tokenização pode reduzir algumas despesas de bastidores e distribuição. Isso não garante um cupom menor: a economia precisa superar o custo de desenvolver o produto e o prêmio de liquidez que investidores podem exigir para um mercado menor ou ainda pouco estabelecido.
USDT e USDC foram projetadas para manter o valor próximo de um dólar e são usadas principalmente em pagamentos, negociações e como garantia. Um token de título corporativo tem outro perfil de risco: seu preço pode oscilar conforme as taxas de juros, o prazo, os spreads de crédito e a situação financeira do emissor.
Quem troca uma stablecoin por um título corporativo não está simplesmente trocando rendimento zero por rendimento grátis. Está trocando uma utilidade semelhante à do dinheiro por um investimento sujeito a risco de prazo, de crédito e de liquidez.
A tributação também impõe limites. A receita de cupons continua sujeita às regras fiscais aplicáveis, e as vendas podem gerar ganhos ou perdas de capital. Transferências de tokens e operações em finanças descentralizadas também podem complicar o controle de lotes fiscais e as obrigações de declaração. Tokenizar um ativo, por si só, não é uma forma de escapar de impostos.
A pressão sobre os emissores de stablecoins seria maior se tokens com rendimento se tornassem fáceis de comprar, resgatar e usar como garantia. Os usuários poderiam manter menos capital parado em stablecoins de pagamento quando produtos on-chain comparáveis passassem a oferecer renda.
Isso poderia afetar a economia da emissão de stablecoins. As reservas de USDT e USDC são investidas principalmente em ativos seguros denominados em dólar, como títulos do Tesouro americano e operações compromissadas de curto prazo, enquanto os detentores dos tokens geralmente não recebem diretamente a renda gerada pelas reservas.
A resposta mais provável, porém, não seria abandonar as stablecoins. Os emissores poderiam posicioná-las como a camada monetária de um sistema financeiro on-chain mais amplo, oferecendo suporte a:
Isso aponta mais para coexistência do que substituição. Stablecoins oferecem liquidez e portabilidade do dólar. Fundos e títulos tokenizados oferecem exposição a investimentos e rendimento. Os dois produtos podem ser usados na mesma transação, em vez de disputarem exatamente a mesma função.
O histórico de Zhu Su é relevante para avaliar com que confiança sua previsão deve ser apresentada. Ele foi cofundador da Three Arrows Capital, cuja falência em 2022 ficou associada a alavancagem extrema e grandes perdas para credores, e mais tarde fundou a OPNX.
Esse histórico não refuta a tese de tokenização. Mas significa que é importante separar a afirmação de quem a faz: as evidências mais fortes vêm dos dados de emissão, dos mercados de ativos tokenizados já em funcionamento e de pilotos regulados — não da convicção de Zhu por si só.
A renda fixa tokenizada tende a crescer onde conseguir melhorar liquidação, administração e distribuição dentro de uma estrutura regulada. O mercado de títulos de 2026 e o piloto indiano ajudam a explicar por que instituições financeiras estão testando esse modelo.
A afirmação mais forte — de que uma crise da dívida americana em breve levará empresas tradicionais a emitir títulos mais baratos on-chain e fará investidores abandonar USDT e USDC em larga escala — continua sem comprovação. A tokenização pode melhorar os trilhos financeiros. Ela não elimina risco de crédito, cria liquidez instantaneamente nem transforma um título corporativo com rendimento em equivalente de dinheiro.