A reação do mercado jogou uma sombra sobre o que, no papel, é uma máquina formidável. A Ferrari Luce é equipada com uma bateria de 122 kWh que alimenta quatro motores elétricos — um em cada roda — gerando uma potência combinada de impressionantes 1.035 a 1.050 cavalos . Os números de aceleração são dignos de Maranello: vai de 0 a 100 km/h em apenas 2,5 segundos e atinge a velocidade máxima de 310 km/h
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Com um preço inicial de € 550.000 (cerca de R$ 3,2 milhões, em conversão direta) e as primeiras entregas previstas para o último trimestre de 2026, a Ferrari posicionou a Luce como o carro-chefe exclusivo e de alta margem de sua guinada elétrica . Mas, para os investidores, o estilo provou que velocidade bruta e um emblema lendário não oferecem proteção quando a estética falha em gritar "Ferrari". A preocupação, ecoada por especialistas, é existencial: seriam oito décadas de valor de marca construído sobre o ronco de motores V12 capazes de sobreviver a uma transição visual que abandona a linguagem central de design da montadora?
Martino de Ambroggi, analista da corretora italiana Equita, resumiu o ceticismo: "Mantemos nossa visão de que um modelo elétrico com preço elevado, mesmo sendo um modelo de 'linha', não vai gerar grandes volumes de venda" .
A escolha de Jony Ive e Marc Newson — a dupla por trás do design revolucionário do iPhone — foi uma ruptura deliberada com a tradição. O presidente da Ferrari, John Elkann, trouxe o estúdio LoveFrom após cinco anos de colaboração, entregando à dupla o controle criativo sobre o interior e a direção geral de design da Luce . O interior, revelado em São Francisco no início de 2026, foi amplamente elogiado por sua abordagem minimalista, repleta de botões físicos que rejeitam deliberadamente a febre das telas sensíveis ao toque
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No entanto, a revelação completa do exterior demonstrou os limites do prestígio de uma lenda do design quando aplicado ao mundo automotivo. A própria decisão de se apoiar tão pesadamente em um nome de fora — alguém do mundo da tecnologia de consumo, não do design automotivo — tornou-se o ponto focal das críticas. Para o segmento de elétricos de luxo, ficou uma lição clara: um parceiro de design famoso pode gerar repercussão, mas não substitui a conexão emocional com a herança de uma marca .
O ceticismo dos investidores não surgiu do nada. Foi o ápice de um ano turbulento para a narrativa elétrica da Ferrari. Em seu "Capital Markets Day" em outubro de 2025, a empresa chocou o mercado ao reduzir sua meta de veículos 100% elétricos para 2030 de 40% para apenas 20% da linha, enquanto aumentava a fatia planejada para motores a combustão . Naquele dia, as ações já haviam despencado 14%, com investidores preocupados que a empresa estivesse perdendo o rumo de sua eletrificação
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O plano revisto — 40% a combustão, 40% híbridos e 20% elétricos até 2030 — colocou a Ferrari ao lado de rivais como Porsche e Lamborghini, que também pisaram no freio em suas ambições elétricas, citando a incerteza da demanda no segmento de luxo . Essa guinada estratégica fez a Luce parecer não como a vanguarda de uma revolução, mas como um experimento cauteloso e de baixo volume contra o qual a própria empresa já estava se protegendo.
A queda das ações em 26 de maio de 2026 estendeu um período já difícil para a marca. Mesmo antes da revelação da Luce, os papéis da Ferrari acumulavam uma queda de cerca de 25% em relação aos picos de 2025, pressionados pela desaceleração no setor de luxo e pela fraca demanda na China . A recepção negativa ao design agiu como um catalisador, cristalizando o medo de que o risco à imagem da marca supera em muito os potenciais ganhos da eletrificação.
"A decepção se espalhou para o mercado de ações", relatou o site financeiro ZeroHedge, destacando que analistas criticaram o layout de quatro portas e cinco assentos como um afastamento gritante da exclusividade tradicional de um supercarro Ferrari de dois lugares . O site especializado Carwow reportou que o choque na Bolsa eliminou mais de £ 3 bilhões da capitalização de mercado da empresa
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A estreia conturbada da Luce é um estudo de caso para todo o setor automotivo de alta gama. Ela escancara três verdades duras sobre a transição elétrica no segmento de ultraluxo:
Linguagem de design é um ativo que faz ou quebra um lançamento. Com um preço inicial de € 550.000, a Luce não está competindo em autonomia ou velocidade de recarga. Sua proposta de valor é emocional. Quando o visual não agradou, os números técnicos se tornaram irrelevantes. A potência de 1.050 cv e a autonomia de 530 km no ciclo WLTP foram completamente abafadas pelo debate sobre o design.
A herança é tanto um fosso protetor quanto uma jaula. A força da Ferrari vem de uma conexão multigeracional e emocional ligada ao som da combustão e a silhuetas clássicas. A transição para uma plataforma elétrica do tipo "skate" forçou um redesenho visual que mexeu fundo demais no núcleo da identidade da marca, acionando uma reação defensiva de fãs e investidores.
Investidores estão avaliando o risco à marca de forma diferente para EVs. A reação do mercado não foi sobre projeções de venda. Foi um veredito sobre se a Ferrari conseguiria navegar a transição sem diluir sua essência. A liquidação de mais de 6% nas ações sinaliza que, para fabricantes de herança ultrapremium, o lançamento de um elétrico agora é visto como um potencial destruidor de valor — e não apenas uma oportunidade de volume — até que uma ponte clara na linguagem de design seja provada com sucesso.
A Ferrari Luce ainda é uma obra-prima técnica e o carro mais ambicioso já moldado por Jony Ive. Se ela se tornará uma curiosidade de colecionador ou a planta de sucesso para o futuro elétrico de Maranello dependerá de os clientes — e não os críticos — abraçarem sua nova forma radical quando as entregas começarem, no final de 2026.