Na prática, isso significaria depender de fornecedores estrangeiros para acesso à capacidade computacional, preços de infraestrutura, disponibilidade de hardware e até decisões políticas, como controles de exportação ou restrições de plataformas.
A urgência mencionada por Mensch está ligada ao ritmo acelerado de construção de infraestrutura global de IA. Empresas e governos já estão investindo bilhões em clusters de computação, cadeias de suprimento de semicondutores e data centers de grande escala.
Uma vez que essas infraestruturas são construídas e contratos de fornecimento são firmados, elas tendem a consolidar posições dominantes no mercado por muitos anos.
Segundo o executivo, os próximos dois anos representam a janela em que a Europa ainda pode expandir sua própria capacidade antes que o acesso global a computação avançada fique concentrado nas mãos dos atuais gigantes da nuvem. Se isso acontecer, novos concorrentes podem ter dificuldade para obter recursos suficientes para treinar e operar modelos de IA de ponta.
Mensch também propõe uma forma diferente de entender a tecnologia. Para ele, a IA deve ser vista como uma tecnologia de infraestrutura industrial, não apenas como inovação em software.
Ele descreve o processo como converter “elétrons em tokens”: a eletricidade alimenta o hardware de computação que gera os resultados dos modelos de IA. Nesse contexto, o sucesso depende tanto de recursos físicos quanto de algoritmos — incluindo energia, chips e grandes instalações computacionais.
Essa visão aproxima a inteligência artificial de setores estratégicos como energia, telecomunicações e transporte.
A infraestrutura da IA depende de três pilares principais.
Modelos avançados exigem processadores especializados, como GPUs ou aceleradores de IA. Quem controla o acesso a esses chips controla também quem consegue treinar os modelos mais poderosos. Dependência de cadeias externas ou de provedores estrangeiros de nuvem pode limitar a capacidade das empresas europeias de escalar suas soluções.
Grandes clusters de IA consomem enormes quantidades de eletricidade. Treinar e operar modelos de ponta exige fornecimento de energia confiável e em larga escala. A metáfora de Mensch sobre “elétrons em tokens” reflete exatamente essa relação direta entre energia disponível e produção de inteligência artificial.
Chips e energia precisam estar integrados em data centers projetados para cargas intensivas de IA. Esses centros abrigam os clusters que treinam e executam modelos.
Como parte desse esforço de autonomia tecnológica, a Mistral anunciou investimentos em infraestrutura — incluindo um projeto de cerca de €1,2 bilhão (aproximadamente US$ 1,4 bilhão) para data centers na Suécia, voltado à expansão da capacidade de computação na Europa.
As declarações de Mensch fazem parte de uma discussão mais ampla na Europa sobre soberania digital — ou seja, a capacidade de um país ou bloco econômico controlar sua própria infraestrutura tecnológica.
No caso da IA, isso significa não apenas ter startups ou pesquisadores locais, mas também controlar as camadas fundamentais do ecossistema: computação, energia, plataformas de nuvem e acesso a dados.
Sem esses elementos, empresas europeias ainda poderiam desenvolver aplicações, mas a base tecnológica continuaria sendo operada por empresas estrangeiras.
A União Europeia tem sido uma das regiões mais ativas na criação de regras para inteligência artificial, incluindo legislações voltadas para segurança e governança da tecnologia.
Regras podem moldar o mercado, mas não produzem GPUs, não constroem redes elétricas e nem levantam centros de dados. Para competir com a escala de investimentos feitos em outras regiões, a Europa também precisa financiar infraestrutura computacional, sistemas energéticos e projetos de data centers.
A visão de longo prazo defendida por Mensch envolve construir um ecossistema completo de inteligência artificial na Europa, com:
Somente com essa combinação de tecnologia, infraestrutura e financiamento — argumenta o executivo — a Europa poderá evitar tornar‑se apenas consumidora de sistemas de IA desenvolvidos e operados por gigantes globais da tecnologia.
Nos próximos anos, ficará claro se o continente conseguirá construir essa pilha completa de infraestrutura ou se dependerá cada vez mais de plataformas estrangeiras para impulsionar sua revolução em inteligência artificial.