Entre esses riscos estão a inflação, o elevado endividamento público, o grande volume de títulos chegando ao mercado e dúvidas sobre a credibilidade dos bancos centrais. A Reuters descreveu o movimento anterior da curva americana como uma venda concentrada na ponta longa, associada a preocupações com inflação e credibilidade.
A diferença entre os vencimentos mostra a dimensão do ajuste. O rendimento do Treasury de 30 anos ficou 112,8 pontos-base acima do título de dois anos — uma distância historicamente ampla, segundo dados de mercado.
Os investidores japoneses não precisam vender grandes volumes de títulos americanos para pressionar os juros. Mudanças graduais na alocação já podem ter efeito:
Esse é um canal de demanda marginal. Ele não significa que o Japão esteja prestes a liquidar toda a sua carteira de Treasuries, nem comprova uma greve coordenada de compradores. Mas uma redução gradual da demanda pode ser relevante quando o mercado já precisa absorver uma emissão elevada de dívida de longo prazo.
A alta dos JGBs ocorre ao mesmo tempo que várias pressões domésticas nos Estados Unidos.
O déficit fiscal americano exige uma emissão significativa de Treasuries. Em geral, quanto maior a oferta de títulos de longo prazo, maior precisa ser o rendimento para convencer os investidores a assumir esse risco de duração. Relatos de mercado também associaram a venda de Treasuries a preocupações com a sustentabilidade fiscal e com o volume de papéis que chega ao mercado.
Empresas de tecnologia e de infraestrutura de inteligência artificial também estão captando recursos por meio de títulos de prazo mais longo. Essa demanda corporativa concorre, em parte, pelo mesmo capital destinado à dívida pública americana.
Relatos identificaram o aumento das emissões corporativas ligadas à inteligência artificial como um dos fatores por trás da alta dos Treasuries de prazo ultralongo. Isso não prova que o endividamento tecnológico tenha causado sozinho a venda dos títulos americanos. Ele amplia, porém, o problema de oferta e retorno exigido: investidores precisam financiar mais obrigações de longa duração tanto no setor público quanto no privado.
A ponta longa da curva pode sofrer mesmo quando o mercado espera uma queda nos juros de curto prazo. Isso acontece quando os investidores projetam uma economia ou uma política monetária mais fraca no futuro próximo, mas continuam preocupados com a inflação e os riscos fiscais de prazo mais longo.
Comentários sobre o presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, concentraram-se na percepção de que ele estaria disposto — ou não — a combater a inflação com firmeza. A Reuters informou que dúvidas sobre seu compromisso com a meta de inflação de 2% estiveram associadas à alta dos rendimentos longos dos Treasuries.
A questão central não é se um único dirigente consegue determinar diretamente o rendimento do título de 30 anos. O ponto é saber se os investidores acreditam que os futuros formuladores de política monetária protegerão o poder de compra da dívida pública de longo prazo. Se essa confiança diminui, o rendimento exigido para manter o título aumenta.
As apostas em uma alta de juros pelo Banco do Japão cresceram rapidamente. Em 13 de agosto, o mercado precificava uma probabilidade de 76% de elevação em setembro, contra 24% em 30 de julho.
Uma alta do BOJ pode afetar os mercados globais por vários canais:
A reação dos Treasuries não é necessariamente de mão única. Uma venda inicial de ativos americanos por investidores japoneses poderia elevar os rendimentos. Mais tarde, porém, um movimento global de aversão ao risco poderia aumentar a procura por dólares e por títulos do governo dos Estados Unidos, considerados ativos líquidos. O momento e a intensidade do ajuste das carteiras serão mais importantes que a alta de juros isoladamente.
Japão e Estados Unidos realizaram recentemente uma intervenção coordenada para comprar ienes, depois que a moeda japonesa caiu ao menor nível em 40 anos. Autoridades japonesas indicaram que novas medidas poderiam ocorrer.
Uma intervenção para comprar ienes pode envolver a venda de ativos denominados em dólares ou o uso de reservas em dólar, criando uma possível fonte adicional de pressão sobre os Treasuries. O efeito, contudo, não deve ser exagerado: uma intervenção não implica automaticamente uma liquidação grande ou prolongada de títulos americanos. Também não há evidência suficiente de uma regra fixa segundo a qual o BOJ interviria caso o rendimento do JGB de 10 anos superasse 3%.
O sinal mais importante é a tensão entre as políticas. O Japão tenta sustentar o iene e conter a inflação ao mesmo tempo que administra um mercado de títulos públicos que passou por uma forte reprecificação. Se os rendimentos dos JGBs subirem de maneira desordenada, o BOJ poderá ser pressionado a preservar o funcionamento do mercado mesmo enquanto os investidores esperam uma normalização monetária. Esse conflito aumentaria a volatilidade no iene, nos JGBs, nos Treasuries e nas operações de carry trade.
Os próximos leilões de Treasuries mostrarão se os rendimentos mais altos estão atraindo demanda privada suficiente. Lances fracos, uma diferença grande entre o rendimento do leilão e o rendimento negociado antes da oferta ou baixa demanda indireta indicariam que os investidores exigem uma compensação maior pelo risco de duração e pelo cenário fiscal. Uma demanda forte sugeriria que os juros elevados começaram a restaurar o equilíbrio do mercado. O Departamento do Tesouro dos EUA publica o calendário de leilões e as informações de emissão.
O mercado observará se o Banco do Japão confirma as expectativas de uma alta em setembro, sinaliza um ciclo de aperto mais rápido ou reage a condições desordenadas no mercado de JGBs. A reação do iene ajudará a mostrar se os investidores consideram a normalização japonesa crível ou insuficiente para conter a fraqueza da moeda. Há relatos de que Japão e Estados Unidos poderiam voltar a intervir, enquanto ex-integrantes do governo japonês defendem altas mais rápidas de juros.
A comunicação do Fed será importante porque os juros longos dependem das expectativas de inflação e da credibilidade da política monetária — não apenas da próxima decisão de juros. Se os investidores entenderem que o banco central tolerará uma inflação acima da meta ou está limitado pelas necessidades de financiamento do governo, a ponta longa poderá continuar sob pressão mesmo com a queda das expectativas para os juros de curto prazo.
Rendimentos mais altos atraem compradores, os leilões americanos têm desempenho adequado, o BOJ normaliza sua política gradualmente e as instituições japonesas reequilibram suas carteiras sem vendas forçadas. Os juros longos permanecem elevados, mas se estabilizam. Nesse cenário, ocorre uma reprecificação de risco — não uma ruptura na demanda por dívida soberana.
Leilões fracos, preocupações persistentes com o déficit, novas emissões corporativas e a percepção de que a política monetária americana é tolerante demais com a inflação poderiam elevar ainda mais os prêmios de prazo. O menor reinvestimento japonês intensificaria a pressão, mas o problema fundamental continuaria sendo mais amplo que o Japão.
Uma alta desordenada dos rendimentos dos JGBs, uma nova intervenção no iene e um ciclo de aperto do BOJ mais rápido que o esperado poderiam desestabilizar as operações de carry trade e os mercados globais de renda fixa. A reação inicial poderia ser de alta dos Treasuries, à medida que investidores japoneses vendessem ativos estrangeiros. Um choque posterior de liquidez, porém, poderia provocar uma corrida ao dólar e aos títulos americanos.
O rendimento de 2,93% do título japonês de 10 anos importa porque altera a atratividade relativa entre os títulos domésticos do Japão e os papéis estrangeiros em um momento no qual o mercado americano já enfrenta forte emissão de dívida, preocupações fiscais, endividamento privado e incerteza sobre a inflação.
A alta dos JGBs pode reduzir uma fonte de demanda por Treasuries e aumentar o risco de repatriação de capital. Ela, entretanto, não basta para explicar toda a pressão sobre a ponta longa americana.
As evidências apontam para riscos elevados de duração, política fiscal, câmbio e credibilidade dos bancos centrais. Ainda não comprovam uma crise fiscal iminente no Japão ou no G7, uma greve permanente de compradores de dívida ou um colapso da demanda por títulos soberanos. O ouro e algumas moedas consideradas refúgios podem se beneficiar se os prêmios de risco aumentarem. Mas, em um choque global genuíno de liquidez, a reação inicial também pode favorecer o dólar e os próprios Treasuries.