A evidência mais direta de um efeito imediato sobre as exportações apareceu depois do início da medida. As importações chinesas provenientes da África alcançaram 193,8 bilhões de yuans, ou cerca de US$ 28,72 bilhões, em maio e junho, alta de 23,5% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo dados atribuídos à Administração-Geral das Alfândegas da China.
Os produtos agrícolas tiveram alguns dos maiores avanços. As importações de abacates africanos cresceram 130%, as de maçãs aumentaram 89,6% e as de laranjas subiram 27,9% no período de comparação.
Os dados mostram como a retirada de tarifas pode acelerar o acesso ao mercado para produtos que já estão disponíveis, atendem às regras de importação e conseguem chegar aos compradores chineses. Autoridades chinesas e representantes diplomáticos atribuíram boa parte do aumento das importações africanas e do recorde bilateral ao novo tratamento de tarifa zero. Como a série cobre apenas os primeiros meses de implementação, porém, ela indica uma associação inicial — não prova que as tarifas, sozinhas, tenham causado todo o crescimento.
A Nigéria foi um dos exemplos nacionais mais visíveis dos efeitos iniciais da política. O comércio bilateral entre Nigéria e China chegou a US$ 18 bilhões no primeiro semestre de 2026, alta de 35% na comparação anual, segundo declarações de autoridades nigerianas e chinesas.
As importações chinesas de produtos nigerianos aumentaram 80%, para US$ 2,3 bilhões, no mesmo período. O resultado sugere que fornecedores nigerianos conseguiram aproveitar custos menores de entrada e uma demanda chinesa já existente, especialmente por commodities.
O desempenho também levou o governo da Nigéria a fazer um alerta: o país deve buscar a exportação de produtos agrícolas, minerais e manufaturados com maior valor agregado, em vez de apenas ampliar o envio de matérias-primas.
A diferença é importante. Uma alta na receita de exportações pode melhorar a entrada de moeda estrangeira sem mudar de forma significativa a estrutura produtiva de uma economia. Processamento, embalagem, manufatura e serviços relacionados tendem a manter mais valor dentro do país do que a exportação de materiais não processados. Por isso, o debate nigeriano trata a tarifa zero como uma oportunidade — mas não como substituta de uma política industrial.
A resposta da Somália concentrou-se na economia marítima. Em julho de 2026, o país e a China assinaram um protocolo que permite a entrada de produtos pesqueiros somalis no mercado chinês sem tarifas, desde que sejam cumpridas as exigências previstas no acordo. Entre os produtos elegíveis estão atum, lagosta e outros produtos marinhos capturados na natureza.
O protocolo foi assinado em Mogadíscio pelo ministro somali da Pesca e Economia Azul, Ahmed Hassan Aden, e pelo embaixador chinês, Wang Yu. Para a Somália, o acordo oferece um caminho prático entre uma preferência comercial ampla e um canal de exportação definido para o setor pesqueiro.
Autoridades somalis associaram a oportunidade a planos mais amplos de desenvolvimento dos recursos marinhos e da receita da pesca. O país também anunciou uma isenção tributária para exportadores de pescado com destino à China, acrescentando um incentivo doméstico à retirada das tarifas de importação chinesas.
O caso ilustra tanto o potencial quanto as condições da política. A entrada sem tarifas ajuda, mas os exportadores de pescado ainda precisam de infraestrutura para desembarque, armazenamento refrigerado, controle de qualidade, rastreabilidade e logística confiável para abastecer o mercado chinês de maneira constante.
O número divulgado inclui importações e exportações. Portanto, um total bilateral maior não significa automaticamente que as exportações africanas estejam alcançando as vendas chinesas para a África.
Autoridades e analistas continuam destacando o desequilíbrio da relação comercial. As exportações chinesas para a África permanecem substancialmente maiores que as importações provenientes do continente, e as reportagens fornecidas descrevem o déficit comercial africano com a China como superior a US$ 100 bilhões no primeiro semestre de 2026.
Autoridades chinesas rejeitaram a ideia de que o desequilíbrio, por si só, prove que a relação esteja fracassando. Elas classificaram essa interpretação como uma “armadilha discursiva” e apontaram o papel do capital chinês e dos bens intermediários nas importações africanas. As duas leituras, contudo, apontam para a mesma questão central: o valor do comércio depende não apenas de seu tamanho, mas também do que a África vende, do que importa e de quanto da produção e dos empregos permanece no continente.
A tarifa zero elimina uma cobrança na fronteira; ela não aumenta o valor de um produto. Governos e empresas africanos precisam usar a abertura para expandir o processamento de alimentos, o beneficiamento mineral, o processamento de pescado e a manufatura. O apelo da Nigéria por exportações de maior valor agregado representa esse desafio mais amplo.
Os exportadores ainda podem ser barrados por exigências sanitárias e fitossanitárias, certificações, inspeções e padrões de produto diferentes. A harmonização dos sistemas nacionais e a melhoria da capacidade dos exportadores de cumprir os requisitos chineses tornariam o acesso sem tarifas mais útil na prática.
Portos, procedimentos alfandegários, redes de transporte e documentos de fronteira podem gerar custos capazes de neutralizar parte do benefício de uma tarifa zero. Liberação mais rápida e sistemas melhores de facilitação comercial são essenciais, sobretudo para produtos agrícolas perecíveis e frutos do mar.
Muitos exportadores ainda não conseguem oferecer o volume, a regularidade ou a qualidade exigidos por grandes compradores chineses. Investimentos em fábricas de processamento, armazenamento, refrigeração, embalagem, testes e controle de qualidade ajudariam a transformar embarques pontuais em setores exportadores duradouros.
A abertura aparece nas reportagens fornecidas como uma medida temporária, o que torna a velocidade de implementação especialmente importante. Governos que usarem a oportunidade apenas para aumentar os embarques de commodities correm o risco de reforçar o padrão atual de exportação. Já aqueles que combinarem acesso com investimentos, qualificação, infraestrutura e padrões específicos por setor terão mais chances de transformar o crescimento comercial em mudança estrutural.
A política de tarifa zero da China ajudou a acelerar as exportações africanas para o país e contribuiu para o recorde de 1,41 trilhão de yuans no comércio China-África durante o primeiro semestre de 2026. O aumento do comércio e das exportações da Nigéria, junto com o protocolo para frutos do mar da Somália, mostra como a oportunidade começou a produzir resultados concretos em alguns países.
O teste decisivo será saber se a política muda a composição do comércio. Sem produção de maior valor agregado, padrões compatíveis, logística eficiente e capacidade produtiva suficiente, a África poderá vender mais para a China e, ainda assim, continuar importando muito mais do que exporta. A abertura tarifária é relevante — mas as reformas que definirão seu impacto duradouro terão de acontecer dentro das economias africanas.