Dados ligados à CAAM, a associação chinesa dos fabricantes de automóveis, contam a mesma história, embora usem um recorte diferente. As exportações de carros de passeio da China subiram quase 85% em relação a abril de 2025, para cerca de 796 mil veículos. Dentro desse total, os veículos de nova energia avançaram mais de 120%, para aproximadamente 420 mil unidades .
As diferenças nos totais vêm do escopo de cada levantamento. Um relatório com base na CPCA estimou as exportações de carros de passeio em abril, incluindo veículos completos e CKD — kits desmontados para montagem no destino — em 769 mil unidades, alta de 80,7% em um ano . Já uma contagem mais ampla atribuída a Cui Dongshu, secretário-geral da CPCA, apontou 939 mil veículos exportados no mês, avanço anual de 51% .
A leitura mais segura, portanto, não é se prender a um único número absoluto. O ponto central é a direção comum dos indicadores: em abril, os NEVs cruzaram a marca de aproximadamente metade das exportações automotivas relevantes da China .
O contraste com o mercado interno é forte. Dados finais da CPCA para abril mostram que as vendas no varejo de carros de passeio na China somaram 1,384 milhão de unidades, queda de 21,5% em relação ao ano anterior e de 16,0% frente a março. No acumulado do ano, o varejo chegou a 5,604 milhões de unidades, baixa de 18,5% .
Mesmo os NEVs não escaparam totalmente da desaceleração doméstica. As vendas no varejo desses modelos foram de 849 mil unidades, queda anual de 6,8%. Ainda assim, a participação dos NEVs no varejo chegou a 61,4%, superando 60% pela primeira vez .
Parece contraditório, mas não é: os NEVs ganharam participação porque o mercado total de carros de passeio caiu mais rápido do que as vendas desses modelos . Dentro da própria categoria, o desempenho também foi desigual. Segundo o CnEVPost, as vendas no varejo de elétricos a bateria subiram 2,4% em abril ante o ano anterior, enquanto as de híbridos plug-in caíram 25,2% .
Ou seja, o marco nas exportações não veio de um mercado doméstico de NEVs em euforia generalizada. Ele aconteceu enquanto as montadoras chinesas aumentavam a dependência dos embarques ao exterior.
Os dados da CAAM ajudam a explicar por que a indústria parece mais resistente quando se olha para o atacado. As vendas no atacado de NEVs — que incluem vendas internas e exportações — chegaram a 1,344 milhão de unidades em abril, alta de 9,7% em relação ao ano anterior e de 7,35% frente a março .
Os NEVs representaram 53,2% das entregas de carros novos no atacado, enquanto os elétricos a bateria somaram 905 mil unidades, alta anual de 10,2% .
É por isso que dois retratos aparentemente opostos podem coexistir. Os dados de varejo da CPCA mostram a pressão sobre o consumidor dentro da China. Já os dados de atacado da CAAM capturam também os embarques de exportação — e esses estavam em forte crescimento .
A guinada para fora já era visível antes de abril. No primeiro trimestre, dados da CAAM mostraram vendas domésticas de 4,823 milhões de veículos, queda anual de 20,3%, enquanto as exportações chegaram a 2,226 milhões de unidades, avanço de 56,7% .
No início de 2026, uma associação do setor já havia alertado que as vendas de carros na China poderiam ficar estagnadas no ano, com a demanda interna enfraquecida pela redução ou suspensão de alguns subsídios locais e por uma concorrência cada vez mais agressiva .
Os números por empresa em abril mostram a força dessa ofensiva internacional. O Chery Group exportou 177,6 mil veículos no mês, a BYD embarcou 134,5 mil e a SAIC Motor Passenger Vehicle superou 125 mil unidades. Juntas, as três passaram de 430 mil veículos vendidos no exterior em abril .
O caso da BYD ajuda a entender a urgência. A empresa vendeu 321.123 NEVs em abril, alta de 6,96% sobre março, mas queda de 15,51% em relação ao ano anterior — o oitavo recuo anual consecutivo, segundo o CnEVPost . O South China Morning Post também relatou que fabricantes chinesas de elétricos, incluindo BYD e Geely, vinham usando exportações e novas tecnologias para compensar a demanda mais fraca no mercado doméstico .
A alta das exportações chinesas não é apenas uma história de excesso de oferta. O Los Angeles Times relatou que a guerra no Irã provocou um choque global de energia e que fabricantes chinesas de veículos elétricos, baterias e painéis solares passaram a mirar países interessados em reduzir importações caras de combustíveis .
Esse ambiente melhora o argumento comercial dos elétricos e híbridos plug-in chineses, especialmente em países que dependem de combustível importado e sentem mais rapidamente o impacto de preços altos.
O efeito já aparecia em março. Segundo o The Straits Times, as exportações chinesas de elétricos e híbridos saltaram 140% em relação ao ano anterior, para 349 mil unidades, à medida que o choque de energia ligado à guerra no Irã renovou o interesse por EVs . Dados de março ligados à CAAM também mostraram exportações de carros de passeio em alta anual de 82,4%, para cerca de 748 mil unidades, com os veículos de nova energia avançando mais de 140%, para 363 mil .
Preço de combustível, porém, deve ser visto como acelerador — não como causa única. As montadoras chinesas já precisavam encontrar volume fora do país por causa da fraqueza das vendas domésticas. A alta do petróleo e dos combustíveis apenas tornou elétricos e híbridos plug-in mais atraentes para compradores estrangeiros .
A leitura mais defensável é que as exportações automotivas da China devem ficar cada vez mais concentradas em NEVs ao longo de 2026 — não que todo mês repetirá o ritmo de abril. A participação de 52,7% dos NEVs nas exportações medidas pela CPCA e a fatia de 53,2% nas entregas de atacado da CAAM mostram que elétricos e híbridos plug-in estão no centro da estratégia industrial chinesa .
O lado positivo para as montadoras é claro: a demanda doméstica fraca aumenta o incentivo para buscar mercados externos, grandes exportadoras como Chery, BYD e SAIC já têm escala internacional, e combustíveis mais caros podem puxar mais consumidores para modelos eletrificados .
Mas as ressalvas são importantes. Os totais de exportação variam conforme o escopo dos dados, então comparações mês a mês devem usar bases equivalentes . Os Estados Unidos não são um grande destino para essa expansão; a CBT News observou que os EVs chineses estão, na prática, barrados naquele mercado . Além disso, uma associação do setor já alertou que o forte crescimento das exportações de elétricos pode não se sustentar indefinidamente .
Em resumo: abril foi um sinal estrutural. As montadoras chinesas estão exportando cada vez mais as tecnologias que definem sua estratégia doméstica, enquanto a demanda externa amortece a fraqueza do mercado interno. Os números são fortes, mas precisam ser lidos com cuidado — considerando diferenças metodológicas, barreiras de acesso a mercados e o papel temporário ou persistente dos preços de energia .