O ivonescimab apresentou até agora o mais relevante desafio, restrito à China, ao pembrolizumabe (Keytruda) no tratamento inicial do câncer de pulmão de não pequenas células (CPNPC). No estudo de fase 3 HARMONi-2, randomizado e duplo-cego, o anticorpo biespecífico contra PD-1 e VEGF melhorou a sobrevida livre de progressão e, posteriormente, atingiu o principal desfecho secundário de sobrevida global contra o pembrolizumabe em monoterapia em pacientes com doença localmente avançada ou metastática e PD-L1 positivo.
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É um sinal clínico importante, mas ainda não demonstra que o ivonescimab possa substituir o Keytruda na prática clínica fora da China. O resultado de sobrevida precisa ser divulgado integralmente e reproduzido em estudos internacionais.
O que o HARMONi-2 mostrou
O HARMONi-2 comparou ivonescimab em monoterapia com pembrolizumabe em monoterapia em pacientes chineses com CPNPC avançado, PD-L1 positivo e sem tratamento prévio. Na análise primária, a mediana de sobrevida livre de progressão, avaliada de forma independente, foi de 11,14 meses com ivonescimab, ante 5,82 meses com pembrolizumabe. O hazard ratio foi de 0,51 (IC de 95%, 0,38–0,69; p<0,0001).
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Em 2 de setembro de 2026, a Akeso informou que uma análise interina pré-especificada de sobrevida global, avaliada pelo comitê independente de monitoramento de dados, atingiu o desfecho secundário-chave e mostrou benefício estatisticamente significativo em relação ao pembrolizumabe. Os valores detalhados de sobrevida global ainda não haviam sido divulgados publicamente; portanto, a dimensão e a durabilidade dessa diferença não podem ser avaliadas de modo independente apenas com base no anúncio.
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Por que o resultado chama atenção
O ivonescimab foi desenvolvido para atingir PD-1 e VEGF em um único anticorpo. Assim, o HARMONi-2 testa diretamente se essa estratégia de duplo alvo pode superar o bloqueio isolado de PD-1 em uma população de primeira linha selecionada por biomarcador.
A sequência dos achados é relevante: uma grande vantagem em sobrevida livre de progressão foi seguida por um resultado estatisticamente significativo em sobrevida global. Em geral, a sobrevida global é mais difícil de melhorar, porque mede o tempo até a morte e pode ser influenciada pelos tratamentos recebidos após a terapia do estudo. Ainda faltam, porém, a mediana de sobrevida, o hazard ratio, o intervalo de confiança e uma atualização completa de segurança para avaliar o equilíbrio entre benefícios e riscos.
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As três aprovações do ivonescimab na China
A Administração Nacional de Produtos Médicos da China (NMPA, na sigla em inglês) autorizou três usos do ivonescimab em CPNPC:
- CPNPC avançado com PD-L1 positivo, em primeira linha: ivonescimab em monoterapia, com base no HARMONi-2.
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- CPNPC não escamoso com mutação de EGFR, previamente tratado: ivonescimab mais quimioterapia após resistência a um TKI de EGFR.
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- CPNPC escamoso avançado, em primeira linha: ivonescimab mais quimioterapia, autorizado em agosto de 2026 após o HARMONi-6.
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A terceira autorização se baseou no HARMONi-6, estudo chinês randomizado de fase 3 em CPNPC escamoso avançado sem tratamento prévio. O estudo comparou ivonescimab mais quimioterapia à base de platina com tislelizumabe mais quimioterapia. Na análise interina divulgada, a sobrevida global mediana foi de 27,9 meses, contra 23,7 meses, com hazard ratio de 0,66 (IC de 95%, 0,50–0,87) a favor do regime com ivonescimab.
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O HARMONi-6 reforça a hipótese para a abordagem PD-1/VEGF, mas não foi uma comparação com pembrolizumabe e estudou outro esquema terapêutico e outro subtipo de CPNPC em relação ao HARMONi-2.
A principal limitação: resultados chineses não são confirmação global
Tanto o HARMONi-2 quanto o HARMONi-6 foram conduzidos na China. Seus resultados dão uma forte justificativa para testar o ivonescimab de forma mais ampla, mas, isoladamente, não comprovam benefício equivalente em populações internacionais de primeira linha.
O principal estudo confirmatório global ainda está em andamento. O HARMONi-3 compara ivonescimab mais quimioterapia com pembrolizumabe mais quimioterapia no CPNPC metastático de primeira linha — escamoso ou não escamoso — independentemente da expressão de PD-L1. Uma análise interina inicial na coorte escamosa não ultrapassou o limiar de eficácia; o acompanhamento cego continuou. Os eventos necessários para a análise final de sobrevida livre de progressão dessa coorte eram esperados no segundo semestre de 2026, junto de análises interinas planejadas de sobrevida global. Para a coorte não escamosa, os eventos de sobrevida livre de progressão eram esperados no primeiro semestre de 2027.
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Esse resultado interino não representa um veredito final sobre o HARMONi-3. Mas significa que os dados da China ainda não foram reproduzidos no programa global de primeira linha mais relevante para a prática de quimioimunoterapia.
Por que o hazard ratio de 0,76 no Ocidente exige contexto
O frequentemente citado hazard ratio de 0,76 para sobrevida global em pacientes ocidentais não vem do HARMONi-2 nem do HARMONi-3. Ele vem do estudo global de fase 3 HARMONi, separado, em pacientes com CPNPC avançado não escamoso com mutação de EGFR cuja doença progrediu após um inibidor de tirosina-quinase de EGFR de terceira geração.
Esse estudo comparou ivonescimab mais quimioterapia com dupleto de platina contra placebo mais quimioterapia — e não contra pembrolizumabe. Na análise primária pré-especificada de sobrevida global, houve uma tendência favorável, mas sem significância estatística: hazard ratio de 0,79 (IC de 95%, 0,62–1,01; p=0,057).
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Com acompanhamento posterior, a Summit informou hazard ratio de sobrevida global de 0,76 tanto na população total por intenção de tratar quanto no subgrupo ocidental. Esse subgrupo incluiu 165 pacientes, e a atualização foi descrita como uma tendência favorável, sem significância estatística. É uma evidência de apoio encorajadora, mas não comprova que o ivonescimab melhore a sobrevida em pacientes ocidentais frente ao Keytruda.
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O que vem a seguir
Três marcos próximos devem definir até onde esses achados podem avançar além da China:
- HARMONi-3: a análise final de sobrevida livre de progressão da coorte escamosa global era prevista para o segundo semestre de 2026, com análises interinas de sobrevida global planejadas.
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- Análise da FDA em CPNPC com mutação de EGFR: a FDA aceitou o pedido de licença biológica da Summit para ivonescimab mais quimioterapia em CPNPC não escamoso, localmente avançado ou metastático, com mutação de EGFR e previamente tratado. A data-alvo de decisão pelo PDUFA é 14 de novembro de 2026.
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- HARMONi-7: este estudo global, randomizado e duplo-cego de fase 3 é o teste mais direto, fora da China, da pergunta levantada pelo HARMONi-2: ivonescimab em monoterapia versus pembrolizumabe em monoterapia no CPNPC metastático de primeira linha com alta expressão de PD-L1. O plano é incluir cerca de 780 pacientes.
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Em resumo
O HARMONi-2 coloca o ivonescimab como um concorrente sério na estratégia PD-1/VEGF: ele quase dobrou a mediana de sobrevida livre de progressão e agora registrou uma vantagem estatisticamente significativa em sobrevida global sobre o pembrolizumabe na população chinesa estudada.
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A conclusão adequada, porém, é mais restrita do que afirmar uma substituição global do Keytruda. Os dados completos de sobrevida precisam ser publicados, e HARMONi-3 — sobretudo HARMONi-7 — deverá mostrar se o benefício se mantém em populações internacionais e diante de padrões de tratamento baseados em pembrolizumabe.