Essa instabilidade se refletiu imediatamente no mercado de metais. O preço do cobre tem reagido a cada nova manchete sobre negociações diplomáticas entre Washington e Teerã: avanços nas conversas costumam gerar pequenas quedas nos preços, enquanto sinais de impasse mantêm o metal valorizado.
Mesmo com algum progresso diplomático, o tráfego marítimo continua altamente limitado, o que reduz o impacto imediato das negociações sobre o fluxo de commodities.
Um elo menos óbvio entre a crise no Oriente Médio e o mercado de cobre envolve o ácido sulfúrico.
Esse produto químico é essencial em certos métodos de extração de cobre, especialmente nos processos de lixiviação, solvent extraction e electrowinning usados para tratar minérios de baixo teor.
Se o transporte marítimo ou o comércio internacional de enxofre e ácido sulfúrico for interrompido, a produção de cobre pode enfrentar gargalos.
Analistas do Goldman Sachs alertaram que interrupções prolongadas no transporte pelo Estreito de Hormuz podem apertar a oferta de ácido sulfúrico — um risco ampliado por decisões políticas, como a restrição da China às exportações desse produto.
Na prática, isso significa que um conflito que começa afetando petroleiros e rotas marítimas pode acabar limitando a produção de cobre ao reduzir a disponibilidade de produtos químicos usados no processamento do metal.
Se a geopolítica explica os picos de curto prazo, a história maior está na demanda estrutural.
O cobre é um material central para a eletrificação da economia. Projetos de energia renovável, veículos elétricos e expansão das redes elétricas exigem grandes volumes do metal em cabos e componentes.
Nos últimos anos, outro fator ganhou força: a corrida global por inteligência artificial. A construção de data centers de alto desempenho e da infraestrutura elétrica necessária para alimentá-los aumentou significativamente a demanda por cobre.
Analistas apontam que o rali das commodities industriais está cada vez mais ligado a esse ciclo tecnológico e energético — e não apenas a choques geopolíticos temporários.
Isso ajuda a explicar por que os preços continuam elevados mesmo quando as tensões no Oriente Médio parecem diminuir temporariamente.
Os contratos futuros de cobre recuaram um pouco após atingir um recorde de cerca de US$ 6,65 por libra em maio, mas continuam em níveis historicamente altos.
A combinação de incerteza geopolítica, custos elevados de energia e expectativas de demanda crescente mantém o mercado atento a possíveis restrições de oferta.
Por isso, o cobre se tornou uma das commodities industriais mais observadas pelos investidores globais.
Os principais bancos de investimento concordam em um ponto: volatilidade no curto prazo é praticamente inevitável. O debate está em torno do equilíbrio entre crescimento da oferta e demanda estrutural.
Goldman Sachs adota uma postura mais cautelosa no curto prazo. O banco prevê que o mercado global de cobre pode registrar um superávit em 2026 e estima um preço médio em torno de US$ 12.650 por tonelada.
Mesmo assim, a instituição ressalta que interrupções logísticas — especialmente envolvendo ácido sulfúrico ou rotas marítimas — ainda podem provocar apertos temporários de oferta.
Já o UBS mantém uma visão mais otimista. O banco elevou suas projeções e vê o cobre podendo chegar a cerca de US$ 15.000 por tonelada até o início de 2027, citando limitações na oferta e crescimento acelerado da demanda ligado à eletrificação e à infraestrutura energética.
Se um acordo duradouro entre Estados Unidos e Irã restabelecer o tráfego normal no Estreito de Hormuz, algumas pressões imediatas podem diminuir:
Mas mesmo um acordo diplomático dificilmente eliminaria os fatores estruturais que sustentam o rali do cobre.
Os investimentos globais em redes elétricas, energias renováveis e infraestrutura digital sugerem que o consumo do metal continuará crescendo nos próximos anos.
A alta do cobre não tem apenas uma causa. Ela reflete a combinação de choques geopolíticos de curto prazo e mudanças estruturais na economia global.
As interrupções no transporte pelo Estreito de Hormuz e os riscos no fornecimento de ácido sulfúrico podem restringir a produção no curto prazo, impulsionando os preços.
Ao mesmo tempo, a expansão da eletrificação, da energia renovável e da infraestrutura de inteligência artificial está elevando a demanda global.
Por isso, mesmo que as tensões geopolíticas diminuam, muitos analistas acreditam que o cobre continuará sendo uma das commodities mais estratégicas — e possivelmente mais voláteis — desta década.