A tese central de investimento é simples, mas poderosa: os bilhões que essas empresas levantarem não ficarão parados. Serão despejados em data centers, frotas de servidores e infraestrutura computacional. Uma boa parte desse gasto, acreditam os investidores, fluirá diretamente para os fabricantes asiáticos que produzem os componentes — peças de servidor, materiais especializados, sistemas de refrigeração e equipamentos de energia .
Desde abril de 2025, uma rotação decisiva está em curso. Investidores institucionais estrangeiros estão retirando bilhões das ações indianas e redirecionando o capital para a Coreia do Sul e Taiwan, para surfar o que está sendo chamado de "superciclo dos semicondutores de IA". No início de maio de 2026, os estrangeiros já haviam sacado aproximadamente US$ 23 bilhões das bolsas indianas apenas em 2026, um valor que já superava o recorde anual estabelecido em 2025 . Esse dinheiro não desapareceu; os fluxos de ETFs e de ações migraram pesadamente para fundos focados na Coreia e em Taiwan
.
A rotação não se limita ao capital institucional. Investidores asiáticos de alta renda injetaram US$ 24,3 bilhões em rodadas globais de financiamento privado de IA em 2025 — quase o triplo do ano anterior — e já haviam comprometido mais US$ 950 milhões até abril de 2026 . Boa parte desse valor está encontrando seu caminho para fabricantes asiáticos de componentes e equipamentos, bem posicionados para se beneficiar da iminente onda de gastos com infraestrutura.
É difícil exagerar a escala desses gastos projetados. A OpenAI está queimando cerca de US$ 14 bilhões por ano em computação e infraestrutura, e analistas do HSBC projetam que ela pode precisar de mais de US$ 207 bilhões em capital acumulado até 2030 . A Anthropic está no meio de um plano de US$ 50 bilhões para data centers, com a intenção de gastar US$ 19 bilhões apenas em 2026 — sendo US$ 12 bilhões para infraestrutura de treinamento e US$ 7 bilhões para inferência
.
O prospecto da SpaceX revelou US$ 12,7 bilhões em investimentos (capex) em IA no ano anterior, superando os negócios de lançamento de foguetes e Starlink somados . O documento também mostrou que a Anthropic é uma cliente de computação que paga US$ 1,25 bilhão por mês, com contrato travado até 2029
. A OpenAI já havia dito a investidores que planeja gastar US$ 600 bilhões em poder computacional até 2030 e lidera o projeto Stargate, uma joint venture de US$ 500 bilhões que visa a construção de 10 gigawatts de capacidade para data centers de IA
.
O efeito combinado deve impulsionar um ciclo plurianual de gastos em infraestrutura. Participantes do mercado estimam que as próximas listagens de SpaceX, OpenAI e Anthropic podem gerar um gasto adicional de US$ 70 bilhões em IA, além dos compromissos já existentes . O J.P. Morgan calcula que perto de 30% de todo o investimento em IA acaba chegando às economias de Taiwan e Coreia do Sul
.
Os fluxos de capital e as revisões para cima nos lucros estão produzindo um rearranjo sísmico no ranking das bolsas de valores globais . O valor de mercado de Taiwan saltou quase 40% nos primeiros quatro meses de 2026, adicionando mais de US$ 1 trilhão e chegando a quase US$ 4,3 trilhões, ultrapassando o Reino Unido e tornando-se, por comparação, o maior mercado de ações da Europa
. A capitalização da Coreia do Sul atingiu US$ 4,59 trilhões em maio de 2026, superando o Canadá para se tornar a sétima maior bolsa do mundo
. Ambos estão agora reduzindo rapidamente a distância para o valor total de mercado da Índia
.
Essa alta se reflete nos índices de referência. Taiwan ultrapassou a China como o país de maior peso no Índice MSCI de Mercados Emergentes, e o peso da Coreia do Sul no mesmo índice está se expandindo rapidamente, também se aproximando da China . A mudança não é meramente cíclica; reponderações de índices dessa magnitude representam uma realocação estrutural dos benchmarks globais em direção a economias expostas ao hardware de IA.
Os ganhos estão concentrados em um número pequeno de empresas. A ascensão de Taiwan foi impulsionada principalmente pela TSMC, a líder mundial em fabricação de chips avançados. O rali da Coreia do Sul foi alavancado pela Samsung Electronics e pela SK Hynix, duas das maiores fornecedoras de chips de memória, essenciais para os sistemas de IA . Juntas, essas três empresas foram responsáveis pela maior parte dos ganhos de valor de mercado que empurraram os dois países para além dos principais mercados europeus em um período de sete meses
.
A fase inicial do "trade de IA" focou nas grandes fabricantes de semicondutores. A próxima fase, impulsionada pelas expectativas dos IPOs, está se ampliando para fornecedores de segundo e terceiro níveis. A Bloomberg relata que os investidores estão cada vez mais mirando empresas que produzem peças para servidores, materiais especializados, componentes de refrigeração e equipamentos de energia .
Algumas das ações mais quentes da região recentemente são de empresas de refrigeração de precisão, testes de alto desempenho e produtos químicos especializados — firmas que estão mais abaixo na cadeia de suprimentos, mas que também se beneficiarão da mesma expansão de infraestrutura . A BNP Paribas Asset Management apontou oportunidades em companhias que fornecem componentes elétricos, gerenciamento térmico e materiais avançados para embalagem de chips
.
A rotação é poderosa, mas não está livre de vulnerabilidades. Em uma semana recente, os fluxos globais para ações desaceleraram bruscamente para US$ 2,6 bilhões, contra uma média de US$ 22 bilhões nas cinco semanas anteriores . A Coreia do Sul registrou uma saída histórica de capital estrangeiro de US$ 1,3 bilhão, enquanto os fluxos para Taiwan desaceleraram para US$ 160 milhões, ante uma média semanal de US$ 820 milhões nos seis meses anteriores
. Analistas da Elara Securities descreveram essa desaceleração como o primeiro sinal de cansaço no posicionamento
.
Há também preocupações domésticas com os valuations. A KGI Securities destacou em um relatório de estratégia de março de 2026 que, embora a demanda estrutural por IA permaneça no início de um ciclo de alta, o efeito FOMO (medo de ficar de fora) levou os valuations das ações de IA em Taiwan a máximas históricas, com sinais de sobrevalorização aparecendo também em setores não ligados à IA . Isso sugere que, mesmo que a tendência estrutural permaneça intacta, os investidores devem esperar recuos periódicos e rotações setoriais dentro do "trade" asiático de IA.
Ainda assim, a direção do capital é clara. Três dos maiores IPOs da história estão se aproximando, e os investidores não estão esperando as listagens para se posicionar nas empresas que fornecerão a infraestrutura física que esses IPOs vão financiar. Se o ritmo atual de fluxos continuar ou se moderar, a reorientação estrutural do capital acionário global em direção a Taiwan e à Coreia do Sul parece ser uma característica duradoura do ciclo de investimentos em IA.
Comments
0 comments